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7 de abril de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (2 - 2ª PARTE)

 
PASTICHE/PARÓDIA —  O ESQUELETO DESAPARECIDO
De Andre Francisco Brun (1881- 1926)
Comediógrafo e humorista, de ascendência francesa, naturalizou-se português e combateu com o exército português na I guerra mundial. Deixou obra importante nas letras.
Aqui fica o sagaz Berloque-Homes em O ESQUELETO DESAPARECIDO.
M. Constantino
Imagem em: http://drawception.com/
 
Um dia o sagaz polícia Berloque-Homes estava em casa passando a ferro umas deduções novas, que tinham vindo da lavadeira, quando sentiu tocar a campainha do corredor. Depois de reflectir dez minutos e tendo chegado à conclusão que, sendo a campainha desprovida de braços, não podia puxar-se a si própria, foi abrir a porta e deu de cara com um homem que o grande detective deduziu logo pertencer ao sexo masculino.
Esse homem, tendo entrado no gabinete de Berloque-Homes, este convidou-o a sentar-se. O homem explicou-se:
— Meu caro senhor… O meu caso é simples; roubaram-me esta noite o meu esqueleto.
Berloque-Homes nem pestanejou e acendeu dois cachimbos, um a cada canto da boca. A visita continuou:
— Todas as noites, quando volto para casa, costumo verificar se não perdi nada. Revisto as algibeiras, conto o dinheiro e, por fim, pondo-me em frente de um aparelho de raios X, reparo se porventura perdi algum órgão essencial do ministério do meu interior.
Berloque-Homes acenou com a cabeça, inteligente.
— Ontem, ao voltar para casa, fiz funcionar o aparelho e qual não foi o meu espanto ao verificar que o meu esqueleto todo tinha desaparecido. Venho encarregá-lo de me procurar o ladrão e de me restituir o meu esqueleto, pois não tenho senão aquele e faz-me uma falta dos diabos.
Berloque-Homes acendeu um terceiro cachimbo ao meio da boca e disse:
— Vá descansado. Amanhã terá o seu esqueleto.
O homem saiu e Berloque-Homes tocou uma outra campainha. Pelo buraco da fechadura da porta falsa de uma caixa de rapé Luís XV, que estava sobre uma étagère, entrou imediatamente o seu discípulo predilecto, que se chama Saraiva em inglês.
— Meu caro, amigo! — disse-lhe Berloque. — Um homem acaba de sair, quem roubaram o esqueleto. Vou, na forma do costume, pendurar-me de cabeça para baixo no candeeiro da casa de jantar, a fim de fazer algumas deduções.
— Mas, mestre — perguntou o fiel Saraiva assaz sagaz para que toma essa posição?
— Porque assim todo o sangue me desce ao cérebro e lhe fornece uma actividade excepcional para resolver certos problemas.
— Ah! exclamou em inglês o Saraiva, sempre discípulo fiel.
Passadas dezoito horas de penduração e de ponderação, Berloque-Homes disse serenamente:
— Não acredito num roubo.
— Porquê, mestre?
— Em face da lógica quem pode ter interesse em roubar um esqueleto, quando este não seja uma curiosidade anatómica? O dono dos ossos é uma criatura normal. Logo concluo que não houve roubo.
— Ah — exclamou o Saraiva maravilhado.
— Vá já no meu automóvel de 1500 H. P. perguntar o senhor se tem o costume de dormir com a boca aberta.
Passados uns três minutos, o discípulo predilecto estava de volta. Fora aos arredores de Edimburgo, a Odiwells, falar ao senhor roubado que lá morava e, ao entrar, exclamou:
— Oh! Tínheis razão, mestre. O homem costuma dormir com a boca aberta.
— Veja qual foi a temperatura média na noite do roubo, — ordenou Berloque.
— Doze graus acima de zero e à sombra — verificou o discípulo no almanaque do Borda d'Água londrino.
Berloque-Homes sorriu e ficou silencioso.
Passado um momento, o grande polícia perguntou ao seu discípulo.
— Que lhe parece?
— Nada, — disse o assaz sagaz Saraiva, que era estúpido como uma porta.
— Pois vou dizer-lhe o destino que teve o esqueleto do homem. Reparou como ele era magro? Tem, a bem dizer, só a pele e o osso. Muito bem. Para mais nasceu num clima quente…
— Como o sabe?
— Pois não viu que o homem é preto?
— Não notei, não.
— Pois é uma coisa que uma pessoa, desde que seja um pouco observadora, descobre logo. Muito bem. O esqueleto desse homem, vindo de um clima quente e não tendo senão a pele para se cobrir, começou a sofrer de ataques de frio, sobretudo na noite em que desapareceu.
— Estou percebendo — exclamou o discípulo para ser agradável ao mestre.
— Muito bem. Vendo que o seu dono não engordava e a temperatura não subia, o esqueleto deliberou abandonar o corpo onde estava padecendo. E, tendo verificado que o homem dormia de boca aberta, foi por aí que, durante o sono do proprietário, ele se evadiu.
— Oh! — exclamou mais uma vez o sagaz Saraiva.
— Resta apenas procurá-lo agora num sítio agasalhado.
Nisto bateram à porta. O Saraiva, tendo-se imediatamente disfarçado em criança de sete anos, foi abrir. Era o dono do esqueleto.
— Meu caro senhor — explicou-lhe Berloque-Homes, — já calculo onde está o seu esqueleto.
— Também eu, replicou o homem.
— Como assim?
— É verdade. Depois de sair daqui, lembrei-me que ontem quando voltei para casa, vinha absolutamente embriagado. Nessas condições, peguei no primeiro objecto que apanhei à mão, cuidando ser o aparelho dos raios X. Ora, tendo deitado a unha a uma caixa de bolachas, o meu erro levou-me à conclusão que me tinham furtado o esqueleto. Hoje, porém, fazendo funcionar o verdadeiro aparelho, vi que tinha cá todos os meus ossos. Meu caro senhor, desculpe a maçada e toque nestes.
O homem saiu, Berloque-Homes sorriu, sorriu e ficou silencioso.

10 de março de 2013

RECORDAÇÕES HOLMESIANAS (1 - 2ª PARTE)

PASTICHE/PARÓDIA — O MEU SERÃO COM SHERLOCK HOLMES
De Joel Lima
O meu excelente amigo Joel Lima é, certamente, o português que mais conhece sobre Sherlock Holmes. O pastiche ou paródia, sobre o referido personagem, data de 28 de Novembro de 1891 e é de autor anónimo, que parece saber pouco sobre a figura que retrata, já que Conan Doyle apenas havia publicado Um Estudo em Vermelho e Um Escândalo na Boémia. A paródia em causa foi publicada no óptimo tributo de Joel Lima, Vidas Paralelas de Sherlock Holmes (a ler e reler), editado por Livros do Brasil, e que transcrevemos com a devida vénia.
M. Constantino


Sou uma daquelas pessoas que se divertem a fazer tudo melhor do que os outros. Daí o meu serão com Sherlock Holmes.
Sherlock Holmes é o detective privado cujas aventuras estão agora a ser narradas por Mr. Conan Doyle no Strand Magazine. Muito a meu pesar — porque detesto ouvir gabar qualquer pessoa, a não ser eu próprio — a esperteza de Holmes (quando, por exemplo, descobre com um só olhar o que comemos na quinta-feira passada) tem feito as delícias do público e da crítica; por isso, resolvi pregar-lhe uma partida. Apresentei-me a Mr. Conan Doyle e consegui persuadi-lo a convidar-me para sua casa quando Sherlock Holmes fosse visitá-lo. O pobre Mr. Holmes não esquecerá aquele serão tão depressa. Tinha-me decidido a batê-lo com as suas próprias armas e, por conseguinte, quando ele me disse, com afectado alheamento: “Pelo estado do seu corta-charutos, Mr. Anon, deduzo que não gosta de música”, atalhei inocentemente: “Claro, nada mais óbvio”.
Mr. Holmes, que estava enroscado numa poltrona, na sua posição favorita, sobressaltou-se e olhou, com indignação, para o nosso anfitrião que, pelos vistos, lhe servia de cúmplice.
— Como pode saber que Mr. Anon não é amador de música, só por olhar para o seu corta-charutos? — perguntou Mr. Conan Doyle, com mal disfarçado espanto.
— É muito simples — respondeu Mr. Holmes, fitando-me agressivamente.
— A coisa mais simples do mundo, com efeito — concordei.
— Quer dizer que não precisa das minhas explicações — replicou Mr. Holmes, com arrogância.
— Absolutamente nada — garanti-lhe.
Enchi o cachimbo com tabaco fresco para dar ao detective e ao seu biógrafo a oportunidade de trocarem olhares, sem que eu os observasse; depois, apontando para o chapéu alto de Holmes, colocado em cima da mesa, observei com voz suave: — Esteve recentemente na província, não é assim, Mr. Holmes?
O detective trincou o charuto com tanta força que a ponta acesa quase lhe queimou a sobrancelha.
— Viu-me? quis saber, _agressivamente.
— Não — retorqui — mas quando olhei para o seu chapéu, apercebi-me de que esteve fora da cidade.
— Ah, bom! — exclamou Mr. Holmes, em tom de triunfo. — Foi só uma suposição sua. A verdade é que…
— Não levou o chapéu consigo, quando foi à província —concluí eu.
— Exactamente— disse ele, com um sorriso irónico.~
— Mas como… — começou Mr. Conan Doyle.
— Ora — atalhei, friamente — talvez isso pareça extraordinário a pessoas, como os meus amigos, que não estão acostumadas a fazer deduções com base em circunstâncias triviais (Holmes arregalou os olhos, furioso), mas posso dizer-lhes que não passa de simples brincadeira para quem conserve os olhos suficientemente abertos. Quando vi que o topo da cartola de Mr. Holmes se apresentava amolgado na parte da frente, compreendi que o seu dono tinha estado recentemente na província.
— E durante quanto tempo? — rosnou Holmes pondo de lado as boas maneiras.
— Pelo menos, durante urna semana — afirmei.
— É verdade— admitiu ele, com um certo desalento.
— O seu chapéu diz-me, também continuei — que veio para aqui num four-wheeler… Não, num hansom (*).
Sherlock Holmes ficou calado, de boca aberta.
— Quer fazer o favor de nos explicar as suas deduções? — pediu o dono da casa.
— Com todo o prazer retorqui. Quando vi a amolgadela no chapéu de Mr. Holmes, percebi que tinha batido contra qualquer superfície dura. Que superfície? Provavelmente o tejadilho de qualquer meio de transporte, contra o qual deve ter chocado quando Mr. Holmes entrou no veículo. Estão sempre a acontecer acidentes desse género. Embora o veículo pudesse ser um four-wheeler, Mr. Sherlock Holmes parece preferir o hansom-cab.
— Como sabe que eu estive na província?
— Já lá chegarei. Como é natural, usa o seu chapéu alto quando se desloca dentro de Londres. Quem usa um chapéu desses, sem o saber adquire o hábito de conservá-lo na cabeça. Deduzi, assim, que recentemente tinha usado durante algum tempo, um chapéu de coco e, por isso, se desabituara da altura suplementar da cartola. Como Mr. Holmes não é pessoa que use um chapéu de coco em Londres, concluí, obviamente, que acaba de passar uma temporada na província, onde os chapéus de coco são a regra e não a excepção.
Mr. Holmes, que perdia, a olhos vistos, o prestígio de que até então gozara aos olhos do dono da casa, tentou mudar de assunto.
— Almocei hoje num restaurante italiano — comentou, dirigindo-se a Mr. Conan Doyle — e a forma como o criado fez a conta, convenceu-me de que o pai, certa vez…
— Por falar nisso— interrompi.— Lembra-se de que, quando saiu do restaurante, esteve prestes a ter uma discussão com um outro cliente?
— Era o senhor? — perguntou Holmes.
— Se admite essa possibilidade — retorqui, com brandura é porque tem uma péssima memória visual.
O detective resmungou qualquer coisa, entre dentes.
— Foi assim que as coisas se passaram, Mr. Doyle — comecei. — A porta do restaurante é giratória; numa das metades está escrito “Puxe” e, na outra, “Empurre”. Mr. Holmes e o outro cliente estavam colocados, cada um de seu lado, mas ambos empurravam. Em consequência, a porta não se abriu até que um deles deixou de empurrar. Olharam um para o outro, com ar furioso, mas não chegaram a insultar-se.
— Assistiu à cena, não é assim, Mr. Anon — quis saber o dono da casa.
— Não — repliquei mas compreendi que as coisas se passaram dessa maneira, quando Mr. Holmes nos disse que tinha almoçado num restaurante italiano. Todos eles têm portas giratórias com os avisos “Puxe” e “Empurre” de cada lado. Dezanove vezes em cada vinte, os seres humanos empurram quando devem puxar e puxam quando devem empurrar. Por outro lado, quando pretendemos sair dum-desses restaurantes, há sempre alguém que quer entrar. Daí, a infalibilidade da cena que descrevi. Para concluir, posso dizer que o simples facto de se cometer um erro tão estúpido, é suficiente para causar mau-humor que, em regra, lançamos sobre o outro interveniente para alijarmos sobre ele a culpa da ocorrência.
— Hum! —-fez Holmes, com ar cada vez mais feroz.— Mr. Doyle, as folhas deste charuto estão a desenrolar-se.
— Sirva-se de outro… — ia a começar o nosso anfitrião, quando o interrompi uma vez mais.
— Deduzo da sua afirmação, Mr. Holmes, que, antes de vir para aqui, foi ao barbeiro.
Desta vez, o detective engoliu em seco.
— E fez encerar o seu bigode —continuei (com efeito, Mr. Holmes, nos últimos tempos havia deixado crescer o bigode).
— Foi o maldito barbeiro que teve essa ideia, antes que eu pudesse impedi-lo — protestou Mr. Holmes.
— Exactamente — retorqui. — No hansom, quando vinha para cá, tentou desfazer com os dedos a obra do seu barbeiro.
— E foi por isso—concluiu Mr. Doyle, cujo rosto se iluminou, de súbito que parte da cera lhe ficou nos dedos e, depois, se agarrou à folha do charuto, obrigando-a a desenrolar-se!
— Precisamente — admiti.— Percebi que Mr. Holmes vinha do barbeiro, quando lhe apertei a mão.
— Boas-noites! — exclamou o detective, pegando no chapéu. (Não era, afinal, tão alto como primeiramente me parecera). — Boas noites! Tenho um encontro marcado com o meu banqueiro, às dez horas e…
— Bem me queria parecer — atalhei eu. Soube-o pelo modo como…
Mas Mr. Holmes já ia longe.

* O four-wheeler (carro de quatro rodas) e o hansom (cabriolé com a boleia à retaguarda) eram os trens de praça mais correntes na Londres vitoriana.

10 de fevereiro de 2013

CONTO – EDWARD E. SMITH

DESASTRE NA MONTANHA

Muitas pessoas morrem em desastres, outras renascem…

— Devem ficar todos quietos, absolutamente imóveis!
 A voz do motorista era áspera e carregada. Ecoou pelo autocarro silencioso, através do microfone. Disse as palavras em inglês, num inglês de guia turístico, depois repetiu-as em francês, alemão e italiano.
Os passageiros, com os rostos cinzentos de medo, ficaram paralisados. Era como se a morte já se tivesse apossado deles. Só os olhos viviam, brilhando com uma estranha luz. Movendo-se de um lado para outro, olhando a estrada, numa esperança de salvação, fazendo tudo para não olhar em frente. Por cima do boné do motorista, através do para-brisas, para o nada que havia além do capô.
As rodas dianteiras giraram vagarosamente no ar, a duzentos metros acima do rio. Para trás, ficava a estrada cheia de curvas, cavada no dorso da montanha.
— Todos devem conservar-se imóveis.
O motorista repetiu o aviso. Tinha o microfone colado aos lábios. As vogais sibilavam, zangadas.
— A equipa de manutenção da estrada, por que passamos há pouco, descerá para nos salvar. Içarão o autocarro e poderemos sair.
Era curioso que o motorista falasse primeiro em inglês, pensava Joe Stevens. Das quarenta pessoas que estavam no autocarro, somente duas, ele e Mabel, falavam inglês. Mas os suíços eram assim… a preferência era sempre para os turistas. Ou pensaria ele, que os dois americanos de meia-idade seriam os primeiros a deixar-se invadir pelo pânico e a atirar-se no abismo?
Joe deixou que os olhos míopes, com lentes bifocais, corressem por sobre as cabeças rígidas dos passageiros. Compreendeu, com satisfação, que estava perfeitamente calmo. O contador que durante trinta anos nunca se enganara continuava a dominar as próprias emoções.
— Nunca deveríamos ter feito esta viagem. Eu sabia que não devíamos ter vindo!
A voz de Mabel, alta e estridente, bateu-lhe nos ouvidos. Ouvira aquela voz assim muitas vezes e sabia que era o prelúdio de uma cena, a menos que tivesse muita habilidade. Era preciso responder: “Tens razão, querida!”, quando voz dela se elevava, assim. Agora, entretanto, havia na voz de Mabel uma nota que nunca ouvira.
Voltou os olhos para fitá-la, para o rosto grande e forte, com um queixo teimoso e olhos esbugalhados. Pela primeira vez na vida, viu naquele rosto o medo da morte.
— Não digas disparates — murmurou Joe, friamente. Nunca lhe falara assim, em trinta anos, mas era o único meio de lidar com uma Mabel quase a ponto de se entregar ao pânico.
— A estrada do Passo de Gotthard — disse ele, — Uma obra-prima da engenharia. E tu dizes que não devíamos ter vindo!
Joe sentia-se muito seguro de si, pendurado duzentos metros acima da morte e sem ter o menor medo. Sempre soubera que seria firme num momento de perigo, que seria o mais forte.
— Mais de oitenta curvas como esta, umas depois das outras. Oitenta!
Olhou outra vez para a esposa. Viu o terror estampado nos olhas dela. Nada restava da mulher que o dominara durante anos e anos.
Joe teve uma ideia. Terrível, mas lógica. Uma sequência natural de sua nova força.
— Sabes — disse ele, olhando para a mulher pelo canto do olho. — Esta estrada está toda minada. Os militares deixaram minas ao passar por aqui.
No silêncio mortal do autocarro, a voz de Joe era alta demais. Viu o motorista olhando para ele, pelo espelho retrovisor. Baixou a voz.
— Estás a ver o rio lá em baixo, no vale? Podes vê-lo no fim da primeira curva. Como um fio de linha branca num fato preto. Uma queda de trezentos metros, daqui até lá abaixo.
Ouviu-se o som de um guindaste, trazido pelo vento. As cabeças votaram-se, rígidas. — Conservem-se todos imóveis, voltou a pedir a motorista. — Não se movam. Não demorará muito agora.
Joe inclinou a cabeça, até que seus lábios quase tocaram os ouvidos de Mabel.
— Disseram-me que um autocarro caiu, certa vez, na segunda curva. Foi uma espécie de desastre de avião. Colocaram uma cruz no lugar onde saiu da estrada.
Ergueu os olhos e fitou o rosto da mulher. O que viu fê-lo compreender que tinha ido longe demais. O rosto de Mabel era uma máscara de morte onde os olhos não tinham brilho, nem expressão. O medo fizera-a perder a noção até mesmo das palavras que ele pronunciara.
Naquele momento, tudo o que sofrera desapareceu. Houvera ainda, outros momentos, na vido de ambos. Ela cuidara bem dele. No primeiro ano de vida em comum, tinham-se amado. Uma paixão profunda, que as conservara unidos, mesmo depois que passara.
Naqueles primeiros dias, era Mabel quem dizia “Sim, querido”. Só depois de começar a ficar importante no escritório é que ele se deixara subjugar em casa. Sem saber como, começara a dizer, “Sim, querida”.
E agora o caso estava perdido. Aterrorizara-a demais. Não podia dominá-la assim como estava, paralisada pelo pavor.
De novo o ruído do guindaste encheu o autocarro. Joe viu os rostos pálidos dos passageiros, voltadas para as janelas. O motorista continuava a olhar pelo retrovisor, atento a qualquer sinal de pânico.
— Mais um pouquinho de calmo. Em breve estará tudo resolvido — disse — O guindaste aguentará, enquanto sairmos. Tudo se resolverá satisfatoriamente.
Por um instante, a ruído do guindaste cessou. Teria deixado de funcionar? Estaria avariado? Por um agonizante segundo, este pensamento atravessou todas as cabeças torturadas. Logo a seguir, ouviram o som da máquina e qualquer coisa agarrou o autocarro pela retaguarda, fazendo-o pender para um dos lados, como um bêbado. Ouviu-se o ruído de terra a cair no abismo.
Joe sentiu, mais do que ouviu, o grito de Mabel. Bateu-lhe na cara com a mão bem aberta. O grito morreu num soluço, quase ao nascer.
— Podem começar a sair agora — gritou o motorista o ruído do guindaste. — Com calma. Um banco de cada vez… a começar da frente.
Joe ficou tranquilamente sentado, esperando que os outros saíssem em fila pela porta de emergência. Não olhou para Mabel. A mulher soluçava baixinha e ele não queria ver-lhe as lágrimas. Agora, que a sua ideia dera resultado, não estava nada satisfeito. Não tivera nenhum prazer em bater na mulher.
O banco da frente esvaziou-se. Joe voltou-se para Mabel:
— Vamos, anda. Não te apresses. Vá devagarinho.
Mabel olhou para ele, que se pusera de pé. Uma figura muito pequena e encolhida, os olhos cheios de lágrimas e no rosto as marcas vermelhas de dedos.
— Sim, querido — disse ela.
Afinal, pensou Joe, não fora assim tão ruim, ter-lhe batido. O homem tinha outro aspecto, quando seguia ao lado da mulher, ajudando-a a descer do autocarro.
O aspecto de um homem que começava a viver.

9 de janeiro de 2013

CONTO DE RANJEE SHAHANI


DINHEIRO FÁCIL

Era um dia extremamente frio de Janeiro, com o vento a soprar furiosamente e a levantar nuvens de poeira seca em turbilhões hostis.
Bamji, o Marwari, sentia os dias maus, sentado a um canto de sua choupana, contemplando a braseira com olhos ausentes. A pouca distância, a sua mulher, encolhida, tremia de frio. Vestira todos os trapos que possuía, mas não conseguia aquecer-se. Tinha o rosto petrificado e os dentes batiam. Há dois dias que não se alimentava.
Bamji sentia no seu coração apenas uma coisa: intensa inveja de seu próspero vizinho, a quem nada faltava. Sentia-se mais mortificado ainda ao pensar que fora ele, Bamji, que iniciara o vizinho nos negócios. Esse pensamento consumia-o. Estava seguro de que o rival não tinha mais aptidões do que ele próprio, no entanto, o vizinho prosperava, enquanto os seus negócios iam de mal a pior.
Porquê que isso acontecia? Trabalhava arduamente, conscienciosamente, sem descansar um só dia. Mas nada dava certo. Agora não tinha vintém. Porquê que isso acontecia? A vida de um homem honesto estaria destinada a ser uma cadeia de contrariedades, pontilhados de sofrimentos? Bamji praguejava em voz baixa.
— Em vez de estares a praguejar, levanta-se e faz alguma coisa — interrompeu a voz da mulher. — Estou a morrer de fome enquanto tu ficas sentado, parado.
O homem olhou-a com profundo ressentimento:
— Sabes bem que tenho tentado tudo, mas não adianta. Cheguei mesmo a vender o relógio que o Mahatma Gandhi me deu de presente durante o Movimento de Não-Cooperação. Mas estou a cair cada vez mais para baixo.
— Que excelente marido tu és! — retorquiu a mulher. — Fazias melhor se te atirasses ao rio.
A linguagem era chocante para uma mulher de um hindu. Bamji sentiu-se ainda mais deprimido. Tranquilamente levantou-se e saiu da casa. A noite caíra e o frio estava penetrante, mas ele andou sem rumo pelas ruas da aldeia, sem reparar por onde caminhava.
Em breve chegou à beira do pântano congelado que rodeava a aldeia. De uma árvore veio o pio estranho de uma coruja. Olhou na direcção de onde se fizera notar o barulho e viu um fogo no limite da terra firme. Dirigiu-se para essa direção, pois, mesmo que se tratasse de assaltantes, sentia grande necessidade de se aquecer. Se fosse assassinado, tanto melhor. Então, talvez sua bondosa mulher ficasse satisfeita.
Ao chegar, encontrou vários estranhos que se aqueciam na fogueira e cantavam refrões desconhecidos. Em nada disso encontrou coisa alguma de bizarra: perdera a capacidade de se surpreender. Mas tinha de se aquecer. Instintivamente, estendeu a mão na direção da fogueira.
— Amigo, pode arranjar-me um lugar? — disse calmamente, procurando instalar-se.
Sentia que os forasteiros entenderiam o Indi, língua nacional da índia, embora ele próprio não a falasse com entusiasmo, pois sua língua materna era o Gujarati. De qualquer forma, julgava-se um patriota e assim procurava agir. E, assim, sentou-se, esfregando as mãos.
Mas, subitamente, começou a perceber a companhia em que se encontrava: murmuravam entre si e pareciam estar a discutir. Levantou os olhos para os examinar e notou que estavam transformados. De cada cabeça saíam chifres como de touros, em cujos extremos se fixavam olhos vidrados. Em lugar de pés, tinham cascos voltados para trás. O choque foi tão grande que o deixou paralisado.
— Ó Marwari — disse o vizinho que ele empurrara para obter lugar.
— Como sabe que meu nome é Dost?
— Porque eu me lembrava muito bem de si — replicou, desesperado, o Marwari.— Não me reconheceu?
— Nunca o vi na minha vida.
Então o Marwari notou pela primeira vez que eram todos muito jovens, simples rapazes e raparigas. Uma ideia emergiu subitamente no cérebro e, voltando-se para o vizinho novamente, disse-lhe em tom de censura:
— Quando é que me vais pagar aquelas cem rupias?
A pergunta chocou Dost pelo absurdo, fazendo-o olhar inexpressivamente para o interlocutor e responder:
— Tolice. Não lhe devo essas rupias. Sou demasiado jovem para incorrer em tal débito.
— Então deve ter sido ao teu pai que eu emprestei o dinheiro — insistiu o Marwari agressivamente. — Onde está o patife? Se eu o encontrar, fá-lo-ei pagar por isso.
— Mas ele está morto — disse Dost, triunfante.
— Tanto melhor. Agora o débito é teu, sem dúvida. Se não me pagares, amarro-te à cauda de um búfalo selvagem.
— Que fazemos? — perguntou Dost nervosamente a seus camaradas. — Sei que vocês podem ajudar-me. Todos os do círculo começaram a aconselhar-se uns com os outros e, em consequência da atitude ameaçadora do Marwari, perderam o pouco bom senso que tinham. O Marwari percebeu o pânico deles e tornou-se mais exigente.
— O dinheiro! O dinheiro, imediatamente! — Gritou, batendo o pé.
Os espíritos sabiam que a tia de Dost tinha um saco de ouro escondido perto de uma árvore, em Bengala.
— É melhor ele ir buscar o ouro e pagar a dívida — sugeriu o que parecia o mais velho entre eles. Mas Dost tinha muito respeito pela tia solteira e declarou que não se atrevia.
— Mas — atalhou uma menina, jovem esperta de chifres e cascos tenros — o dinheiro será teu quando ela morrer. Porque não começar a usá-lo agora?
Esse argumento pareceu convencer Dost, que resolveu cavar o metal precioso e pagar a dívida. Todos o aplaudiram e resolveram ir juntos até à árvore, deixando um refém com o Marwari. Voltaram com o saco que passaram ao incómodo visitante sem se dar sequer ao trabalho de contar as moedas.
O Marwari estava altamente satisfeito com o sucesso de seu truque e pensando em levar o dinheiro para casa. Mas pensava também nos assaltantes que infestavam os pântanos. Não tinha o menor desejo de ser morto. Agora obtivera dinheiro fácil. Que maravilha! Fora um tolo durante toda a vida e agora tinha aberto o caminho da riqueza: bastava apenas um pouco de esperteza. Mas preocupava-se com os assaltantes. Como escapar a essa ameaça?
De repente sorriu. Como não lhe ocorrera antes a ideia? Os espíritos podiam ser aproveitados como escolta.
— Escuta lá, — declarou — não cobrei juros do dinheiro, de modo que tu deves levá-lo até à minha casa.
Dost, completamente acobardado, concordou em fazer o serviço. E assim o grupo inteiro formou-se em procissão; Dost com o saco às costas, logo seguido pelo Marwari. Quando se aproximaram da aldeia, o Marwari ainda pensou em outro ardil para evitar outros riscos. A sua miserável choupana podia despertar suspeitas e ele não queria ser incomodado pela tia, portanto, disse-lhes que morava na casa de seu rival e agarrou o saco do ouro, despedindo-os em seguida.
Sorrindo consigo mesmo, seguiu com o tesouro para a sua choupana. As ruas estavam escuras e não havia ninguém, de modo que ele entrou confiante. Atirando o ouro para o chão, olhou triunfante para a mulher. Ela ainda estava encolhida a tremer de frio, mas seus olhos iluminaram-se ao ver o marido: comida, afinal!
— Vê — gritou o Marwari, exultante. — Temos ouro para muitos anos. Podes comer o que quiseres.
Ela olhou para o chão, mas não viu nada, absolutamente nada.
— Onde está o ouro? — perguntou.
— Bem na tua frente. Estamos ricos para o resto da vida E mais do que isso, consegui vingar-me do patife do nosso vizinho.
— Sorriu, ao pensar na fúria da tia.
Então começou a clarear e tudo na choupana se tornou bem visível. A mulher viu as condições da roupa do marido, rasgadas e enlameadas. Não havia ouro em lugar nenhum.
— Que aconteceu contigo? — perguntou ela.— Ficaste louco?
Mas não conseguia obter nada dele, além do grito incessante e desesperado:
— Ouro! Ouro!

30 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 365

Efemérides 30 de Dezembro
Jane Langton (1922)
Jane Gillson nasce em Boston, Massachusetts, EUA. Estuda Astronomia e História de Arte. Começa por escrever e ilustrar livros infantis, em 1964 publica o seu primeiro romance policiário, The Transcendental Murder, iniciando a série Homer Kelly — um excêntrico estudioso, advogado e detective — que conta com 19 livros. Em 1984 Jane Gillson recebe o Nero Award e uma nomeação para o Edgar Award com romance Emily Dickinson Is Dead, o 6º da série Homer Kelly.


TEMA — LITERATURA POLICIÁRIA — EVOLUÇÃO DAS TÉCNICAS NARRATIVAS: PORQUE FOI COMETIDO O CRIME?
Este terceiro processo narrativo apoia-se no porquê? Ou porque foi cometido o crime? O que o liga à motivação do delito. Já sabemos quem, como, falta-nos o porquê. Algo tão importante porque a descoberta a razão do crime é meio caminho andado para se encontrar o criminoso. É, de resto, o processo mais escolhido pelos autores actualmente. Em estudos de policiário já tivemos ocasião para referenciar Anthony Berkeley Cox (Clicar), com o pseudónimo Frances Iles, como o pioneiro do sistema que aborda processo psicológico.
No conto que apresentamos, bem se pode dizer que, verdadeiramente, não se pode apontar um “ilícito punido pela lei”, aqui a lei é a lei humana do crime mais banal — a dor íntima.

CONTO DE PEGGY MORROW — A MÁSCARA
Adaptação de M. Constantino
Dez notas de mil dólares novinhas, livres da tira de plástico, lentamente colocadas soltas sobre o arranhado tampo de vidro da escrivaninha do Dr. Raymond Bennet.
Gotas de suor surgiram na testa e no lábio superior do médico.
Dois minutos esgotaram-se antes do médico falar. Os olhos desviaram-se do dinheiro e fixaram-se nos frios olhos cinzentos do homem no lado oposto da mesa.
— Não, — disse o médico. Não posso fazer isso.
O visitante da meia-noite levantou-se. O seu impassível corpo esguio lembrava o de uma serpente.
— Certo, doutor, se não quer, não faça. Os meus argumentos esgotaram-se e isso é algo que nem mesmo um revólver pode obrigar a fazer.
Ele retirou as mãos enluvadas dos bolsos do sobretudo; à direita segurava uma automática.
— Só por questão de segurança, vou amarrá-lo à cadeira e amordaçá-lo. E cortar os fios do telefone.

Na manhã seguinte, o sono abandonava aos poucos a mente de Myra Bennet.
Virou a cabeça no travesseiro para acordar o marido com alguma palavra amarga. Sentou-se bruscamente. A cama ao lado estava intata! Vestiu o robe.
Procurou pela casa e encontrou o marido como o pistoleiro o tinha deixado. Em pânico, desamarrou as cordas e tirou-lhe a mordaça da boca.
Então ele contou o que acontecera. Como um enviado de Joe Quattrociocci, inimigo público número 2, apareceu de madrugada oferecendo dez mil dólares para fazer uma operação plástica ao rosto e às impressões digitais do chefe da quadrilha.
— Não podia fazer isso. Apesar de precisarmos muito de dinheiro eu não poderia empurrar a minha profissão para esse caminho sujo.
Ela saltou.
— Idiota! — gritou, rouca de ódio. — Idiota, mole e fraco! Céus! E achas que és um homem! Devias ter feito a operação e ninguém saberia. Podias ter aproveitado. Com todas as coisas que quero e que preciso! Tu enterras-me nesta cidade horrível. A mim! E rejeitas mais dinheiro do que já tivemos em dois anos da nossa vida!
— Mas Myra, — protestou ele.
— Mas Myra…— imitou ela — Já chega! Entendeste? Nunca serás ninguém!
Saiu correndo da sala e da vida dele.

Raymond Bennet nunca mais a viu até aquele dia em Viena. Cansado de tanto estudar e pesquisar, entrou num cinema que exibia filmes americanos. A câmara cinematográfica fez coisas estranhas e interessantes com a sua beleza. Ela era hipócrita e agressiva, bonita e má. O tipo perfeito para representar o papel de vamp moderna — a vulgaridade essencial escondida sob a arte dos técnicos de Hollywood. Ela não sabia representar. Poderia vencer utilizando o seu próprio tipo da vida real.
Ele seguiu os seus filmes em Viena e quando voltou a Nova Iorque. Foram dez anos de luta, brilhantes na ascensão carreira de cirurgião. Na biblioteca da sua luxuosa casa em Park Avenue, podiam-se encontrar, além de revistas de medicina, revistas sobre cinema. Uma noite estava na biblioteca, a tomar um conhaque depois do jantar e a fumar charuto com um colega, quando o mordomo entrou na sala trazendo o telefone portátil.
— Chamada de Hollywood, senhor.
— Hollywood? — estranhou o Dr. Bennet. — Quem é?
O mordomo ligou o telefone ao interruptor e conferiu com a telefonista.
— Um Sr. Bernstein, senhor.
— Nunca ouvi falar dele… — disse o Dr. Bennet — mas é melhor atender.
Rápida e excitada a voz soou pelo telefone. Bennet deu um salto.
— Quem foi que disse? — gritou. — Oh, sim… sei. Não se preocupe com o dinheiro. Falaremos sobre isso mais tarde. Sim, sim. Cancelarei tudo. Sim, vou de avião. Fretarei um, se for preciso. Sim, imediatamente.
Desligou o telefone.
— Doutor — disse ao colega, — terá de me substituir por uns tempos. A minha… quero dizer, uma amiga íntima, Myra Bent, a estrela de cinema sofreu um acidente de carro. A cabeça dela chocou com o vidro da frente. Era o produtor dos seus filmes. Eu disse que iria.
— Você é o único homem no país que pode fazer esse trabalho — disse o colega, aprovando.

No dia em que as ligaduras seriam retiradas, ele entrou no quarto. Ficou sozinho a um canto, fumando um cigarro enquanto os assistentes retiravam a gaze. Depois mandou que saíssem e caminhou até a cabeceira de Myra Bent. Sem falar entregou-lhe um espelho.
Ela viu o seu rosto milagrosamente reconstituído na sua beleza original. Mas era o rosto de alguém que ela nunca havia visto antes. Um rosto sereno e adorável, de tanta paz e bondade que olhando para ele fazia lembrar crianças brincando num jardim. Um rosto de Madona, certamente o de um anjo. Qualquer coisa, menos o rosto de Myra Bent, femme fatale da tela Neste papel, ela nunca mais mostraria o seu rosto.
Antes que pudesse falar, ele levantou a mão pedindo silêncio.
— Eu sei — disse. — Mas agora pelo menos vais-te parecer com a mulher que sempre esperei que tu fosses.
Virou as costas e deixou-a com a máscara que faria parte da vida dela para sJane Gillson.


Perfil de Mulher - Picasso (1960)


TEMA — POESIA DO CRIME — A FORÇA DO HOMEM
De Luís Gomes
(Transcrito com a devida vénia das Selecções Mistério)
O Homem evoluiu
e construiu
um mundo para si!
Desbravou florestas, savanas e rios,
disputou aos animais bravios
a sobrevivência em indómita vontade
numa luta de morte, cruel e dura…
Ante a força feroz, infrene e bruta
das mais possantes feras, a veleidade
do homem, fraco ser, tamanha luta
era sonho irreal, era loucura…
Mas das humanas mãos a habilidade
gerou força mais forte que a força bruta!
E vingou a força do mais forte
quando o homem criou armas de morte…

E desde então
quando cresceu em civilização
o Homem triunfante, rei e senhor,
sempre, sempre, empunhando em sua mão
as armas, essa força, ao seu dispor.

Essa força que no homem despertou
quanto de bom e mau lhe rege o coração,
uma força, uma lei que sazonou
no fruto duma atroz contradição
Despotismo e poder, revolta e liberdade,

Senhores e ódio, genocídio e guerra
em nome até da justa Santidade
quanto de sangue se ensopou a terra…
Ó quanto o Homem alongou o braço
desde que a primeira vez ele empunhou
na mão a pedra, a maça, o ferro, o aço
e quanto a ferro e fogo já ceifou
em bárbara e minaz, cruel vindima
que na consciência do homem já ferrou
o estigma horroroso de Hiroxima…

Num mundo em violência, mundo cão,
a arma é a mensagem em que se exprime
a fraqueza da força, a força da fraqueza;
E o homem tem a morte em sua mão
num desafio à própria natureza…

E se servindo a verdade se redime
também serve a traição… o ódio… o crime!