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27 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 362

Efemérides 27 de Dezembro
P. T. Deutermann (1941)
Peter T. Deutermann nasce em Boston, Massachusetts, EUA. Militar de carreira durante 26 anos publica o seu primeiro livro de ficção em 1992 Scorpion in the Sea. Em 2005 inicia a série Cam Ritcher, que conta com 4 livros. No total P. T. Deutermann tem 15 romances policiários publicados e este ano, o romance Pacific Glory recebe um prémio literário, Excellence for Military Fiction.

  

TEMA — BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA (28)
Continuação de CALEIDOSCÓPIO 357 (Clicar)
Mais de um século depois do nascimento de Sherlock Holmes em 1887, o personagem nada perdeu do seu esplendor. Alcançou uma aura mística, tornou-se o arquétipo do investigador infalível e entrou na vida corrente de cada um de nós ao preencher o léxico para o decifrador de enigmas
O culto do místico personagem revela-se não só no elevado número de clubes holmesianos que se espalham por todo o mundo, como nos estudos, teses e contra teses sobre o mesmo, podendo afirmar-se com um certo à vontade que nenhum aspecto, por mais recôndito, foi esquecido. Dificilmente se poderá abordar um assunto sherlockiano que não tivesse sido, melhor ou pior, objecto de exploração. Nenhuma outra figura, em qualquer outro tipo de literatura, juntou à sua volta, a partir de poucos anos do seu sucesso, tanta popularidade.
Ao proveito do autor e à aura do personagem, segue-se um séquito interminável de rivais. Não os rivais que resultam do próprio texto de Doyle, ou sejam aqueles que o eram por antinomia ao seu trabalho, para sermos mais explícitos, os casos de Moriarty ou o Coronel Moran, ou por oposição no estatuto profissional, como Lestrade, Gregson, Bradstreet, Stanley Hopkins, Barker o investigador privado, Leverton o detective da Pinkerton, etc, mas os competidores “pastichidas”, “émulos” e “usurpadores”, termos estes por vezes pouco acessíveis para classificação dos textos_
De qualquer modo, nesta avalanche insofismável, a excelência do valor do personagem contém-se na continuidade para além da vida humana, sem distinção de fórmulas distintas releva como uma segunda saga infinita.
A onda de “pastiches” — entenda-se nos textos sérias e sátiras, as primeiras como aventuras apócrifas do herói, exactas na personalidade, no clima e estilo, como que escritas pelo próprio criador; as segundas que respeitam a imitações burlescas, caricaturais, revelando ironia ou comicidade, em regra imagens distorcidas da figura modelo — são incontáveis.
Seguem-se os “émulos”, aqueles que não contendo o cunho característico do herói, o procuram igualar ou superar, e os “usurpadores”, cuja fauna proliferou no mundo anglo-saxónico e Europa continental, sem respeito pelo personagem, pelo criador, em nome de quem subscreviam histórias significativas e, pelo próprio leitor — alvo de duplo abuso Não obstante, este último atrevimento de tais artifícios, Holmes ganhou em propagação, não sendo embora, nem adequado nem serio procedimento.
Não vamos falar de Holmes — não seria mais do que uma repetição de repetições. Porém parece-nos o momento próprio para encerrar a BREVE HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA, porquanto o tipo de pesquisas que antecederam e passaram por Poe até Conan Doyle está feito. A partir daqui, o leitor poderá obter história e ficção sobre os seus autores e personagens favoritos, Livrarias, bibliotecas, Internet são as fontes ideais para mitigar a sede de conhecimentos policiários.
Estamos gratos pelo interesse proporcionado, se chegou a obtê-lo!
M. Constantino



TEMA — CONTO DE JOHN BRUNNER — A MÃO DO PERITO
Uma estranha história…
Fora, na noite quente e primaveril, começou subitamente um martelar irregular. Depois da primeira meia dúzia de golpes, uma voz rouca elevou-se sem qualquer senso de ritmo, entoando uma canção.
Na barraca confortável e bem iluminada, onde estava de visita ao centurião seu amigo, o elegante jovem da equipa do governador torceu o nariz, para mostrar desagrado disse:
— Gosta desta música abominável?
— Não! — exclamou o centurião. — Mas seria preciso mais do que o meu poder sobre os meus homens para pedir-lhe que calasse a boca. Não sabe quem ele é, não é verdade?
— Como poderia saber? — indagou o elegante jovem, e tornou um gole da sua taça de vinho samiano. — Este seu vinho é excelente. Quem lho manda?
— Um grego. Vou enviar-lhe um barril, já que gosta tanto. Como estava a dizer…não sabe quem é o cantor?
— Tenho pouco contacto com os soldados — declarou o jovem sarcasticamente.
— O nome de Decius Asculus significa alguma coisa para si? — perguntou o centurião, e sorriu, ao notar a compreensão no rosto do seu amigo.
— A quem chamam Perito? Ele é realmente um de seus homens?
— Sim, Quer dar uma olhadela?
— Claro que sim! — o elegante jovem levantou-se.
Com o centurião ao seu lado, saiu da barraca. Um homem corpulento, nu até a cintura, estava a trabalhar numa tosca mesa de madeira à luz de uma tocha segura por um legionário. O seu trabalho consistia em bater pregos enormes com uma marreta. A cada golpe, o pátio parecia estremecer.
— Então é este o Perito? — Murmurou o jovem elegante. Colocou a mão no braço do seu amigo.
— Sim! O motivo por que está a cantar assim é que tem três pessoas para amanhã, e isso deixa-o sempre contente.
— É tão bom como dizem?
— Melhor. Preciso, cuidadoso, exato… Devia vê-lo a fazer o serviço. Se quiser, poderá vir vê-lo amanhã!
O elegante jovem encolheu os ombros.
— A ideia excita-me. Naturalmente, não posso avaliá-lo com certeza da mesma forma que um homem de acção como o senhor, mas uma pessoa sempre precisa preparar-se para tudo, não é?
— Perderá a sua relutância rapidamente, acredite-me. É puramente um prazer observar um verdadeiro perito como ele.
Declus Ascuius parou de cantar. Lançou um olhar para o centurião e para o amigo.
— Aposto um denário como o centurião está a convidar o amigo para ir à montanha amanhã — disse.
Ante a palavra “montanha”, o legionário estremeceu e a tocha balançou na mão.
— Estás de serviço amanhã na execução, filho? — perguntou o homem enorme.
O jovem legionário anuiu. Decius prosseguiu:
— É a primeira vez, hem rapaz?
— Vais acostumares-te.
Decius Asculus arrumou os pregos sobre a mesa. E colocou a marreta ao lado deles.
— Além disso, as pequenas festividades de hoje não são nada em comparação às dos velhos dias. Já ouviste falar da Revolta dos Escravos? Quando foram dominados, foram crucificados ao longo das estradas como uma lição. Eram mais de cinco mil. Muitas vezes desejei ter estado lá. Sabes como me chamam? O Perito. Não apenas um perito, mas O Perito. Enviam-me os novatos para aprenderem o serviço. Observa amanhã com cuidado, quando estiver na montanha. Será uma honra ver Decius Asculus em acção! Mais do que isso, eu farei um favor especial, já que és um bom rapaz. Dá-me a tua mão.
O jovem hesitou. Decius Asculus segurou-o pelo pulso. Com a longa prática que tinha, virou a mão, esticou-lhe os dedos e selecionou um prego da mesa.
Viste bem?— indagou. — Não importa quão relutante seja, posso sempre abrira sua mão, quando quiser. Manter a mão quieta é uma coisa importante. Muitos homens soltam-se porque as mãos não são bem pregadas na cruz. Soltam-se penosamente, devo acrescentar. Para escapar à morte, não se importam em perder um dedo para se soltarem do prego
O rosto do jovem era pálido à luz da tocha.
— Assim! É preciso colocar o prego no meio da palma da mão!
O rapaz soltou a tocha e puxou a mão. Soltou-se e correu para longe.

Não era um dia ruim. Havia uma multidão seguindo os homens condenados. Eram três. Mas Decius Asculus não podia esquecer-se da Revolta dos Escravos, quando cinco mil homens foram crucificados. Ah, isso é que fora execução uma execução digna do Perito em grande escala. O máximo que tivera de uma só vez fora uma dúzia, a tripulação de um navio pirata capturada em Cesarea.
Entretanto, não havia motivo para não fazer um trabalho perfeito.
Não pensara em perguntar quem eram os três homens daquele dia. Não se preocupava com tais assuntos. À espera na montanha, ao lado das três cruzes, voltou-se para um de seus ajudantes e perguntou, sem sentir propriamente curiosidade:
— Quem são eles?
— Dois ladrões — murmurou o indivíduo— E esse homem santo que trem causado tanto tumulto na cidade,
Ninguém de importância. Decius Asculus voltou para onde estava.
Quando chegou o momento de começar trabalho, Decius sorriu. Aquele era o seu clímax. Apanhou o primeiro prego. Era para aquilo que vivia. Segurou o prego entre o polegar e o indicador, colocou a ponta no meio da mão do condenado e então, “bam!”
Algumas vezes, os crucificados choravam e gritavam ante o primeiro golpe. Às vezes desmaiavam. Ele preferia os que gritavam. Isso indicava que eram fortes e que gostariam de viver um pouco mais O sangue aparecia nos buracos e começava a pingar.
Então cuidava dos pés, com a mesma prática demonstrada para as mãos. Ver o prego penetrar na carne dos outros significava mais para Decius Asculus do que comida ou vinho — quase mais do que uma mulher mesmo.
Os ladrões valeram a pena. Lutaram. Um deles desafiou a dor e quase conseguiu dar-lhe um pontapé na cara, antes de ter o pé pregado.
O terceiro homem foi um desapontamento. Parecia sem alma, sem coragem. Não fez qualquer tentativa de resistir. Apenas abriu as mãos, para que os pregos penetrassem na carne. Não gritou, como os ladrões: Isso aborreceu Decius. Indicava que não viveria muito e algumas pessoas poderiam dizer que ia morte fora devida a um erro da parte do executor. Isso poderia prejudicar a sua fama.
Quando chegou aos pés, torceu os pregos para se assegurar de que estavam firmes.
— Pronto, fraco — exclamou Decius. Levantou os olhos e começou a voltar-se…
E parou.
Os olhos do homem na cruz estavam abertos e olhavam diretamente para os seus.

— Você tinha razão a respeito do Perito! — disse o jovem elegante ao centurião, depois de tomar um cálice de vinho samiano. — Fiquei impressionado com a perícia no outro dia. Haverá outra execução amanhã, não? Devo declarar que gostaria de assistir também.
O centurião franziu a testa.
— Poderá assistir se quiser. Mas Decius Asculus não estará lá.
— Por que não? Oh!— o jovem sorriu. — Algum general roubou-lho, posso ver peia expressão do seu rosto.
— Não.
O rosto continuou a apresentar sinais de preocupação.
— Não. Aconteceu uma coisa extraordinária. Estava a dar uma volta naquela mesma noite, depois da execução, e passei pela barraca onde Decius Asculus devia estar a-dormir. Ouvi um ruído e então escutei a sua voz tentando entoar aquela canção horrorosa do outro dia. Assim, chamei um homem da patrulha e fui ver o que estava a acontecer.
 — Que descobriu? — Indagou o jovem elegante, servindo-se novamente do rnesmo vinho.
— Descobri… — o centurião não parecia muito seguro de si — Não deixe isto espalhar-se ou o povo poderá começar a falar. Bem, lá estava Deciuus, sentado à mesa no centro da barraca, com uma pequena tocha à sua frente, a marreta e uma porção de pregos. E Decius pregara a sua própria mão à mesa. Quando lhe perguntei o que estava a fazer levantou apenas os olhos e disse que estava a tentar pregar a outra mão à madeira. Talvez conseguisse se pusesse o martelo entre os dentes, foram as suas palavras.
— Que coisa extraordinária! — declarou o jovem, e começou a falar a respeito de outro assunto.

26 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 361

Efemérides 26 de Dezembro
Pat McGerr (1917 – 1985)
Patricia McGerr nasce em Falls City, Nebraska, EUA. Jornalista e editora e começa a escrever romances e contos policiários a partir de 1947 com Pick Your Victim, o seu livro mais conhecido que está classificado como um dos 50 melhores Policiários Clássicos de 1900-1950. A escritora é considerada uma especialista mistérios construídos de uma forma inventiva e engenhosa, mas não tem grande sucesso comercial. Uma das particularidades da narrativa da escritora consiste numa inversão ao esquema tradicional em que se procura o culpado. Patricia McGerr dá a conhecer o criminoso, mas o leitor só irá descobrir a identidade da vítima no final. A escritora cria a personagem Selena Mead que se envolve em enredos de espionagem. Em 1952 recebe o Grand Prix de Litterature Policière com Follow, As The Night (1951) e em 1968 com o conto Match Point In Berlin recebe o Ellery Queen Mystery Magazine atribuido pelos Mystery Writers of America. Em Portugal está registada a poublicação de:
1 – Escolha a Sua Vítima (1955), Colecção As Grandes Obras de Mistério e Acção, Editorial Século. Título Original: Pick Your Victim (1947).
2 – Um Milhão De Testemunhas (1955), Colecção As Grandes Obras de Mistério e Acção, Editorial Século. Título Original: Death In A Million Living Rooms (1952), também editado com o título Die Laughing.
3 – A Morte Mora No 14º Andar (1955), Nº68 Colecção Vampiro, Editora Livros do Brasil. Título Original: Follow As The Night… (1952). Nesta esdição portuguesa a autora aparece como Pat MacGerr (por lapso?).

  
TEMA — FICÇAO CIENTÍFICA — BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (67-69)


Volume 67 — The Furies (1966) de Keith Roberts


Keith John Kingston Roberts (1935 –2000) autor, editor e ilustrador britânico surgiu na Ficção Científica com uma obra notável, exactamente The Furies, um trabalho excepcionalmente bem escrito, de uma elegância de estilo e veracidade convincentes. Citam-se: Pavane (1968) The Inner Wheel (1970), Gráinne (1987) e Molly Zero (1980).

The Furies encerra um tema estranho: …tudo começou com um ensaio nuclear que, realizado no fundo do PacIfico, fendeu a crosta do oceano e fez nascer um vulcão onde existira um abismo de oito mil metros de profundidade. Então surgiram as Furias, vespas monstruosas e mortíferas quase das dimensões do homem, que se propagam, multiplicando-se pelo mundo, destruindo a humanidade e escravizando a Terra.


Ficha Técnica
Vieram do Espaço
Autor: Keith Roberts
Tradução: Eurico da Fonseca
Ano da Edição: 1970
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta Nº154
Páginas: 210





Volume 68 — Babel-17 (1966) de Samuel R. Delany
  
Samuel Ray Delany Jr., nascido em 1942 no Harlem, cursou estudos de física, matemática e música. É um privilegiado: aos doze anos escreveu um conserto de violino, aos 21 ganhou o Prémio Nebula com Babel-17, aos 25 novo Nebula com The Einstein Intersection e um outro Nebula para o conto Aye and Gomorrah, aos 28 o Hugo e o Nebula para Time Considered as a Helix of Semi-Precious Stones.

Babel-17
O tema central  uma guerra galáctica entre a Aliança Terrestre e os Invasores vindos de outro lugar do imenso Cosmos. Aparentemente um space opera, dada a inclusão e utilização de sofisticada tecnologia, o autor deriva para um tema inédito em Ficção Científica — a força da linguagem. A Aliança que tinha imensa facilidade em falar e entender qualquer língua, enfrenta um invasor cuja arma desconhecida e terrível, é precisamente uma nova língua (Babel 17) que ninguém consegue decifrar. A tarefa de Rydra Wong em busca da solução do enigma de Babel 17 adquire aspectos de introspecção no mundo estranho e maravilhoso: o nosso próprio pensamento.


Ficha Técnica
Babwl-17
Autor: Samuel R. Delany
Tradução: Eduardo Saló
Ano da Edição: 1989
Editora: Círculo de Leitores
Colecção: Romances de Ficção Científica
Páginas: 247




Volume 69 — This Immortal (1966) de Roger Zelazny
  
Roger Joseph Zelazny (1937 – 1995) Zelazny ,natural de Cleveland, Ohio, licenciado em literatura pela Columbia University, apreciado autor de Ficção Científica e fantasia, releva pela excelência da temática mitológica, conflitos de religião e psicologia. Seis vezes premiado com o cobiçado Hugo nas várias modalidades literárias, da novela ao conto, três prémios Nebula e dois Locus Locus Fantasy Award, apresenta-se com um palmarés difícil de igualar. As suas excursões ao domínio da fantasia, estão assinaladas com Dilvish, The Damned, (1982) uma obra inesquecível.

This Immortal, Hugo Award de 1966, revela-nos que num determinado momento da história do mundo, a radioactividade povoou a terra de mutante que, aos olhos desprevenidos, podem fazê-los pensar no renascimento da velha mitologia; este resto do planeta é como que um museu vivo das diversões dos extraterrestres de Vega. Se a Terra mudou, muito mudou igualmente Conrad Nomikos, o imortal, ex-líder da resistência contra aqueles extraterrestres, agora em apuros para proteger a sua vida e a dos outros.



TEMA — CONTO FICÇÃO CIENTÍFICA — A OPORTUNIDADE PERDIDA POR UNS É A OPORTUNIDADE GANHA POR OUTROS
De Ivan Carlos Regina
Depoimento do comandante da nave Aldebarã XIV; transcrita, na forma de lei, para ser anexado ao processo de julgamento de dissolução molecular de seu corpo, pelo genocídio integral de toda uma raça alienígena:

Como é do conhecimento desse digno júri, eu, Alex do Clã Martirius, comandante-chefe da nave Aldebarã em missão de reconhecimento ao planeta intitulado Zintadel, entrei em órbita planetária há cerca de dois meses padrões atrás.
Após recebermos dados conclusivos sobre o planeta e sua atmosfera, minha tripulação de elite e eu descemos á superfície, seguindo todas as precauções e munidos de armas recomendadas para este tipo de missão e pelo regulamento corporativo.
Ao desembarcarmos no meio de uma floresta tropical que nem em sonhos pudesse pensar existir, e talvez peio facto da sensação do término da viagem de ida, percorreu-nos uma alegria contagiante que nos fez abraçar aqueles troncos vetustos, admirar os líquens coloridos que pendiam dos galhos como estandartes de exaltação à natureza, mergulhar, imprudentemente, nossos membros nas cascatas cristalinas de ribeiros que se entrelaçavam como corpos sedentos de amor. Enfim, um ambiente quase paradisíaco.
Lembrando-me porém de minha posição de comando, e em cumprimento do disposto no memorandum fonado de nº 14527, do qual solicito que seja anexada cópia a este processo, alertei a tripulação para que seguíssemos viagem à procura da raça inteligente que o Comando nos disse existir neste planeta.
Durante dois dias andamos, e as criaturas encontradas neste trajecto assombrariam, sem qualquer sombra de dúvida, qualquer explorador espacial. Tanta diversidade de formas e de cores, seres exóticos, compridos e cilíndricos, outros parecendo enormes tanques de guerra, alguns voavam em raras misturas de matizes enquanto entoavam suaves melodias.
Ao terminarmos nosso segundo dia de marcha avistamos um ser estranho, de um formato improvável, curiosamente policromo e notoriamente desajeitado. A criatura, ao pressentir nossa presença, foi tomada de um pavor supremo, ingressando em sua toca de onde regressou com uma arma ridícula, terrivelmente atrasada, tentando atingir-nos com pequenos projécteis, num objetivo nitidamente belicoso. Isto registrado, suprimimo-lo e continuamos a marcha, por não se tratar do povo procurado.
Ainda um dia andamos, e para surpresa nossa, encontramos um ajuntamento horripilante das ditas criaturas, que, ao ver-nos, comprimiram-se aos milhares e olhavam-nos com espantosas feições de terror.
A fim de avaliarmos exactamente até onde aquele ódio fortuito à nossa gente estava em suas almas, trouxemos alguns deles até a nossa nave onde foram dissecados psiquicamente pelo neuro-fibrilhador, que chegou às seguintes conclusões, que poderão, obviamente, serem cotejadas com os registres assinados pelo neurologista de bordo:
  • A tal raça, embora antiga, não tem consciência do seu eu colectivo.
  • Os seus seres, muito embora a natureza lhes tenha sido pródiga, mutilam seu meio ambiente, fazendo de algumas áreas cloacas imundas onde se arrastam criaturas esquálidas que nunca viverão felizes.
  • Praticam o sexo de forma amedrontada e tímida. Desconhecem outras termas de carinho.
  • No afã de conseguirem objectos tomam-se cegos ao apelo da beleza que os cerca por todos lados.
  • Os outros seres do planeta, impossibilitados de reagirem, lançam na atmosfera seus brados inúteis, na plenitude de uma sinfonia de dores.
  • Os ditos seres se alimentam de outros seres que sadicamente criam para tal fim, abatendo-os na clandestinidade de matadouros imundos que nossos olhos não vêem sem se revoltarem.
  • Cansados de ferirem todas as raças, todos- os vegetais, todas as geografias, a incrível raça, a fim de seguir seu atavismo destruidor, aprisiona seus rebentos de forma intencional, impedindo-os do crescerem mentalmente, inculcando-lhes sensações estranhas e contraditórias que nunca compreenderemos.
Enfim, a tal raça é incapaz de seguir seu caminho de felicidade. Recebeu um dom do criador deste cosmos e deitou-o baixo.
Evidentemente, eu, Alex do Clã Martirius, não poderia deixar passar e essa oportunidade de justiça, A tal raça não era a que procurávamos pois, por sua vocação, não possuía um mínimo de inteligência.
Foi, portanto, com muito orgulho que dei chance as outras raças, talvez inteligentes, do planeta. Mandei a nave actuar através do dissolvedor molecular de sintonia fina, eliminando toda aquela raça de pavorosos seres bípedes que se auto denominavam humano.
Continuamos na busca do povo procurado…

25 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 360

Efemérides 25 de Dezembro
Pierre Audemars (1909 – 1989)
Pierre Eugene Noel Audemars nasce em Inglaterra. Os seus romances policiários são passados em França, apresentam uma visão sombria deste país mas com sentido de humor sardónico. Pierre Audemars cria 2 séries: os mistérios de Hercule Renard, com 4 livros publicados, e os mistérios de Monsieur Pinaud com 27 romances. O autor também usa o pseudónimo Peter Hodemart.


Joe Gores (1931), MC
Joseph Nicholas Gores
EM ACTUALIZAÇÃO

TEMA — CONTO DE DOMINGOS CABRAL — O DESEJO DE MENINA
Absorta nos seus pensamentos, a mulher caminhava, apressada, quase alheia ao bulício que a rodeava. Mal se apercebia da animação, da cor, do movimento invulgar, da vida que ia por toda a cidade. As ruas repletas de pessoas, qual formigueiro em pleno labor, ofereciam o aspecto agitado e febril dos grandes dias. Pessoas apressadas, como ela, mais vagarosas outras, transportando embrulhos bonitos, coloridos, entrando e saindo dos estabelecimentos também repletos, ou admirando simplesmente as suas montras, cheias de coisas belas, tentadoras.
Ela não transportava embrulhos bonitos, nem admirava as montras. Tão pouco levava consigo aquele sentimento de satisfação que os rostos das outras pessoas deixavam transparecer. Pensava. Evocava com amargura e saudade os tempos em que também se sentira feliz, em outros Natais que a marcha inexorável da vida ia levando para um passado ainda recente mas que lhe parecia já tão distante! Tão feliz fora… Mas depois…. Sim, depois o marido morrera, vítima daquele acidente brutal e inesperado, verdadeira tragédia na sua existência, e ela ficara desamparada, minada por um desgosto intraduzível. Apagara-se aquela chama de vida, e dificuldades, nunca sonhadas, começaram a surgir. Ficara só, desoladoramente só, com a filhinha de poucos meses, a única felicidade que ainda hoje possuía — e com uma dramática perspectiva futura, desaparecido que fora quem sempre, modesta mas dignamente, assegurara a subsistência do seu lar.
Desde então a sua situação vinha sendo ingrata, a sua existência bem dura.
Vira-se na necessidade de trabalhar, de labutar arduamente para sobreviver. Para prover à manutenção do seu lar desfeito, da sua querida Paulinha.
Passara dificuldades, dias maus — e continuava a passá-los, porque o seu emprego, modesto, lhe proporcionava fracos proventos. Mas só ela, que à sua filhinha, hoje com quatro anos, nunca faltara o essencial. E por tal objectivo lutava — lutaria sempre!
A sua menina! Sorriu embevecida ao evocar a sua carita de anjo, os olhos negros profundos, vivos, emoldurados pelos belos caracóis da sua cabecita loura.
Caminhou um pouco mais e quedou-se, finalmente, junto à montra simples duma loja simples — uma montra repleta de brinquedos. Brinquedos! O encanto e o sonho da pequenada! Quantas preces ao Menino Jesus para que lhes colocasse no sapatinho as bonecas, os carros, os aviões as pistas, as bolas, os jogos, tudo, todas essas coisas tão desejadas…
Sim, a Paula, a sua Paulinha, também não deixaria de ter o seu “Menino Jesus”. Ela comprar-lhe-ia a sua prenda, a prenda que a menina, feliz e ansiosa, iria procurar no sapatinho, logo de manhã, mal acordasse.
Não podia ser coisa de vulto, claro. As dificuldades eram tantas! E como ela trabalhava para as superar! Se o marido fosse vivo seria diferente… Haveria alegria, uma Consoada ridente, como a Festa de Natal deve ser. E os brinquedos para a Paulinha seriam outros, mais valiosos, sem dúvida.
Mas ele “fora para o Céu”, “para uma grande viagem”, como dizia à filha, sempre que a sua inocente curiosidade a impelia a perguntar pelo pai que não via. Assim…
Ah, de qualquer modo ela teria brinquedos. Mais modestos, embora, mas teria. Comprar-lhe--ia uma boneca e… Não como aquela que vira, há dias, numa loja da “Baixa”, que andava, chorava, fechava os olhos e dizia “Mamã”. Não, essa era tão cara! Ainda a apreçara sonhando, mas… Custava tanto quanto ela recebia por uma semana inteirinha de trabalho! Compraria uma mais modesta. Que a sua filha não deixaria de gostar, estava certa, embora não lhe tivesse perguntado o que queria que o Menino Jesus lhe desse. Custava-lhe a admitir, mas a verdade é que procedera ostensivamente dessa forma por recear que a filha, na sua inocência, lhe pedisse algo que as suas parcas possibilidades lhe não permitissem adquirir. A tal boneca, por exemplo. E como sofreria se tal acontecesse…
Dar-lhe-ia, pois, uma boneca, uma outra boneca. E que mais? Aquele fogãozinho de plástico, com caçarolas pequeninas, vermelhas, ali ao canto da montra? Sim, e também, talvez, aquele pequeno urso de peluche, mais além. Cento e sessenta escudos? Jesus, como era caro. E o seu dinheiro tão pouco! Seria mais uma privação! Mais uma entre tantas! Compraria!
À sua volta, na loja, o movimento era desusado. A eterna magia do Natal; Quadra de Amor, Fraternidade, Compreensão. Familiares que se juntam, prendas que se trocam, corações que se aproximam. Comoveu-a aquele movimento, a agitação, o calor humano, a felicidade que se lia no rosto de todas aqueles pessoas. E o motivo que ali a levou, que comprazimento, igualmente, lhe proporcionava!
Agora também ela transporta embrulhos bonitos, coloridos. E, embora com menos dinheiro, vai mais feliz, espiritualmente mais rica. Porque, no dia seguinte, igualmente a sua menina teria um sapatinho com prendas, como as outras crianças. Tal como estas, viveria momentos de alegria. E a alegria da filha constituiria, para si, a sua prenda, a prenda a que também ela tinha direito e que corporizava, afinal, a razão da sua existência e da sua luta: a inestimável sensação de a ver feliz.

Manhã de Natal. O sol mal desponta ainda no horizonte. É a hora da alegria, da satisfação em todos os lares onde existe a suprema felicidade dum riso de criança. É a hora em que todas elas, coraçõezitos a saltitar, emotivos, se dirigem impacientes à chaminé.
Também a Paulinha fora buscar ao sapatinho as prendas do seu “Menino Jesus”. Gostara muito da boneca, do fogão e do pequeno ursinho. Abraçara as coisas e dirigira um luminoso olhar a sua mãe.
Mas não estava completamente feliz! Não era aquela expressão literalmente risonha a quem nada falta. A mãe notou-o no seu rosto pequenino, no indizível melancolismo que lhe vinha do ser, e que não sabia ocultar. Não estava enganada, não — em certas circunstâncias é bem difícil um coração de mãe enganar-se. A sua menina tinha algo, não estava feliz, como ela tanto desejava vê-la.
Se calhar não gostara. Talvez…
Ansiosa, com o coração angustiado, pressagiando uma mágoa indefinível e profunda, quis saber o que se passava no Intimo da filha. Perguntou. Insistiu. Uma, duas, três vezes.
E então, ao mesmo tempo que sentia os seus bracitos rodear-lhe o pescoço, ouviu a menina confessar, baixinho, com voz trémula, o seu desejo, o desejo que o Menino Jesus lhe não satisfizera:
— Eu queria… eu pedi ao Menino Jesus… que trouxesse o papá…

24 de dezembro de 2012

CALEIDOSCÓPIO 359

Efemérides 24 de Dezembro
James Hadley Chase (1906 – 1985)
René Lodge Brabazon Raymond nasce em Ealing, Londres, Inglaterra. Fortemente influenciado por autores policiários norte-americanos tentar a escrita deste género, sob o pseudónimo James Hadley Chase. O primeiro livro que publica em 1939, No Orchids For Miss Blandish é um sucesso literário, mais tarde adaptado ao teatro e ao cinema. No total escreve cerca de 80 romances, passados nos Estados Unidos da America, que Chase apenas visita duas vezes — New Orleães e Florida. Os seus livros estão recheados de intriga, chantagem e histórias de crimes e espionagem e os seus personagens incluem o ex commando Top Corrigan, Vic Malloy um detective privado californiano, Mark Girland um ex-agente da C.I.A., e o milionário Don Miclem. ~
Chase que usa também os pseudónimos Ambrose Grant, James L. Docherty, e Raymond Marshall. O autor tem diversas obras editadas em Portugal:
1 – A Carne Da Orquídea (1954), Nº38 Colecção Escaravelho de Ouro, Editorial Édipo. Título Original: The Flesh Of The Orchid (1954).
2 – Apenas Por Dinheiro (1970), Colecção Clube do Crime, Editora Parilex. Título Original: Strictly For Cash (1954).
3 – O Ponto Fraco (1971), Nº57 Colecção Clube do Crime, Editora Parilex. Título Original: The Soft Center (1954).
4 – Uma Questão De Tempo (1972), Nº8 Colecção Círculo Negro, Editora Bertrand. Título Original: Just A Matter Of Time (1972).
5 – Queres Continuar Vivo (1973), Nº14 Colecção Círculo Negro, Editora Bertrand. Título Original: Want To Stay Alive (1971). Reeditado em 1983, Nº13 Colecção Álibi, Edições 70.
6 – Um Milhão Em Jogo (1973), Nº18 Colecção Círculo Negro, Editora Bertrand. Título Original: You're Dead Without Money (1972).
7 – Mudar De Ambiente (1974), Nº26 Colecção Círculo Negro, Editora Bertrand. Título Original: Have A Change Of Scene (1973).
8 – Desafio À Mafia (1974), Nº32 Colecção Círculo Negro, Editora Bertrand. Título Original: Knock, Knock Who's There? (1973).
9 – Não Mandem Orquídeas A Miss Blandish (1983), Nº4 Colecção Álibi, Edições 70. Título Original: No Orchids For Miss Blandish (1939), também editado com o título The Villan And The Virgin. Em 1990 é reeditado, também pelas Edições 70 com o Nº 26 na Colecção Alibi : os clássicos do romance policial. Série especial com o título A Virgem E O Bandido.
10 – O Mistério Do Ícone Desaparecido (1990), Nº107 Colecção Livros de Bolso, Série Clube do Crime, Publicações Europa América. Título Original: Try This One For Size (1980).
11 – Antes Morrer Que Matar (1991), Nº111 Colecção Livros de Bolso, Série Clube do Crime, Publicações Europa América. Título Original: Lady - Here's Your Wreath (1940).
12 – Considerado Violento (1991), Nº116 Colecção Livros de Bolso, Série Clube do Crime, Publicações Europa América. Título Original: Belived Violent (1968).



Mary Higgins Clark (1929)
Mary Theresa Eleanor Higgins nasce em Bronx, Nova Iorque, EUA. Publica o primeiro romance policiário em 1975, Where Are The Children?, um bestseller que marca a vida e a carreira da escritora. Seguem-se mais de 4 dezenas de romances de suspense e 3 colectâneas de contos, vendidos em todo o mundo. Só nos EUA as vendas dos seus livros ultrapassam 80 milhões de cópias e o seu 1º romance atinge a 75ª edição. Dois livros da autora estão adaptados ao cinema — Where Are the Children? e A Stranger Is Watching — e diversos romances e contos adaptados à televisão. Entre os vários prémios atribuídos a Mary Higgins Clark destaca-se o Grand Prix de Literature Policière de 1980 com A Stranger Is Watching e o título Grand Master Edgar Awards em 2000. Em Portugal estão editados todos/ou quase todos os romances da autora.



TEMA — CONTO DE NATÉRCIA LEITE — CHUVA E LÁGRIMAS DE NATAL
Caía uma chuva intensa e gelada mas apesar disso as ruas estavam cheias de gente e as lojas profusamente iluminadas.
A mulher aconchegou mais o casaco ao corpo magro e levantou tanto quanto pôde a gola no pescoço. Do chapéu-de-chuva escorriam torrentes de água.
Apressou o passo furando por entre a multidão que se agitava nos passeios, nas suas compras, e pensou o quanto as suas tinham sido poucas e mais que modestas. Quedou-se depois abismada na montra duma pastelaria onde, dispostos em vários andares, os doces e os bolos eram uma tentação.
Vinha do interior da loja um calor morno de forno e um cheiro delicado de doçaria. A mulher olhou a montra e viu aquelas maravilhas. Chamou-lhe a atenção um bolo grande, redondo, coberto de chocolate e coco ralado, que seria exactamente ao gosto de Fredie. Chocolate e coco.
Os preços estavam marcados. Para ela eram pequenas fortunas. Há 5 — cinco anos, que os Natais eram tristes e solitários com Fredie na prisão cumprindo a sua pena.
Criara o seu filho com tanto amor e cuidados, mas desde pequeno fora uma luta constante com a sua rebeldia e revolta, com a pobreza, a vida que a mãe levava, o meio que o rodeava.
Adolescente e tinham começado os pequenos delitos e a vida da mãe um sobressalto constante.
Durante dias Fredie desaparecia, sumia da vizinhança. De pequenas coisas sem importância de maior, tornara-se num jovem marginal revoltado contra tudo e todos — tendo por único refúgio, consolo e consideração a mãe.
Depois da casa de correcção e da subsequente saída, Fredie parecera melhorar um pouco. Ainda arranjara alguns pequenos empregos mas onde pouco tempo se mantivera.
Conhecera Rosie e acalmara. Rosie era doce e bonita e a mãe viu nela a salvação para o filho. Mas Rosie trocara Fredie pelo filho mais velho do penhorista do bairro e então Fredie ficara bravo de verdade.
Foi nessa altura que Fredie se meteu com péssimas companhias, dando pequenos golpes donde vinha sempre com dinheiro. Até que deram o assalto na loja do penhorista (o que de certo modo resultara da raiva e frustração de Fredie por aquela gente).
Assalto à mão armada, o penhorista bastante machucado, a loja escavacada.
Dias depois tinham sido apanhados e as penas após o julgamento foram pesadas.
A velha mãe chorara de meter dó e a solidão pesava-lhe de há 5 anos a esta parte como um tormento e uma culpa. Não sabia em que falhara na educação do filho, e quanto mais o aconselhava e acarinhava mais rebelde ele lhe parecia em relação ao meio e à sociedade.
A mulher abriu a bolsa e contou o dinheiro que possuía. No dia seguinte iria visitar o filho, levar-lhe umas pequenas lembranças e, se pudesse, aquele maravilhoso bolo de coco e chocolate. Entrou na loja e fez a sua compra, O bolo ficou muito bem acondicionado numa caixa de cartão com um bonito papel de fantasia no exterior e uma fita colorida.
Afoitando-se à invernia e à chuva a mãe regressou à sua pobre casa. Dispôs as suas compras na pequena cozinha e pôs-se a trabalhar.
Sempre que visitava o filho voltava mais esperançada. Os assistentes sociais, o psicólogo (? …), o próprio director falavam-lhe bem de Fredie. O seu comportamento era óptimo — quem sabe não cumpriria a pena toda… Trabalhava na prisão em relojoaria e tomara gosto. Ansiava sempre pelas visitas da mãe — que o achava cada vez mais caído e mais triste.
Ah, não poder modificar a vida, viver numa outra casa com outras condições, num outro bairro de gente ordeira e sossegada, ter um outro trabalho mais bem pago que aquele numa fábrica de cartonagens
A mãe preparou, temperou, cozinhou um frango. Pôs de lado a fruta da época — belas, grandes e sumarentas laranjas — o relógio barato que comprara a prestações, as meias listradas de lã fina, a caixa de cartão com o belo bolo de Natal para Fredie.
Algures em milhares de casas haveria ceias alegres, luzes, lareiras acesas, bebidas boas jorrando. E muita luz!
Ali era escuro, pobre, triste.
A mãe arrumou as suas coisas e preparou-se para se deitar. Foi olhar por detrás dos vidros. Chovia ainda copiosamente. A chuva batia nos vidros e escorria. A escorrer pareciam lágrimas de um choro desfeito.
Amanheceu triste, cinzento e chuvoso na mesma. A mãe levantou-se vestiu o seu robe sem forma e quase sem cor.
Estava frio no quarto. Andou dum lado para o outro arrumando coisas e preparando tudo para ir visitar Fredie — levar umas migalhas de Natal a Fredie.
Bebeu o seu café com pão da manhã.
Estava pensado que o seu “menino” iria ficar encantado com o enorme bolo de chocolate e coco.
 Ainda faltavam dois ou três Natais em que passaria só e triste. Mas depois tinha fé que o seu Freche tomasse tento na vida e enveredasse pelo caminho do bem e duma vida normal.
Enquanto dava as suas voltas pela pequena casa que procurava manter limpa e tanto quanto possível acolhedora, as lágrimas corriam pelo rosto da mãe.
Nos vidros de igual maneira escorria o pranto.
Tocam à porta. Quem será? No dia de Natal, na casa desta pobre viúva? Abre. E é o seu Fredie — o seu Fredie que vem (com redução de pena), que a abraça e levanta no ar — que mistura as lágrimas com as dela.
Ainda está aparvalhada, tonta, nem quer acreditar!
O filho coloca-a no chão, olha-a muito sério, afaga-lhe a face. Milagre de Natal — pensa a mãe…
Natal de Paz e Alegria com bolo de chocolate e coco.
E cai chuva, escorre chuva, escorrem lágrimas de felicidade.


TEMA — CRÓNICA DA CIDADE
O táxi atravessava a zona deserta da cidade. O condutor, Mourato, sondava as sombras procurando clientes. Aqui e ali, dos prédios informes, chegava-lhe aos ouvidos esporádica música, ocasionais risos.
Continuou.
Uma figura encapuçada, meio escondida, fez-lhe sinal para parar. Mourato hesitou por um instante, receoso de tomar um freguês num lugar tão isolado; decidiu, porém, não desperdiçar a oportunidade de ganhar mais algum dinheiro. Era noite do Natal. Afinal de contas o Natal era uma ocasião em que se gastava um pouco mais; representava, igualmente, a expectativa de uma gorjeta, própria daquela noite. A necessidade impunha-se-lhe.
Ao parar junto da berma descobriu que o embuçado era um homem, mas o rosto estava, quase no todo, escondido pela aba do chapéu e pelo espesso cachecol enrolado em volta do pescoço.
Teve um sobressalto, mas o homem já havia aberto a porta traseira e instalara-se.
O desconhecido deu um endereço do outro lado da cidade e o condutor animou-se momentaneamente, calculando o montante do transporte e a antecipação da esperançada gorjeta.
Depois sentiu nas costas a indubitável pressão de um objecto frio e pontudo.
— Continue em frente até que o mande parar! — advertiu a voz seca do desconhecido.
Mourato encolheu-se. Começou a transpirar. Um suor frio e incómodo cobria-lhe o rosto e o corpo que estremecia nervoso.
Que iria fazer? Como havia de livrar-se do incómodo passageiro, tanto mais que a pressão nas suas costas não deixava de se fazer sentir? Arriscar? Valeria a pena a arriscar-se a apanhar um balázio? Que manobra idealizar sem que uma bala o atingisse?
Procurou levar o veículo por ruas mais concorridas e iluminadas; a arma fazia pressão e ele desistia.
O suor acumulava-se-lhe no corpo.
Desistiu, fatalista. Continuou em frente.
De repente um ligeiro ruído vindo de trás tomou forma. Escutou, duvidoso e espantado. Sem poder acreditar, pelo insólito da situação, começou a guiar cuidadosamente evitando solavancos, atravessou as várias ruas transversais tomando um rumo certo que lhe parecia longínquo.
Lançou um olhar furtivo ao espelho retrovisor, mas divisou apenas um vulto escuro. Prestou atenção: os seus ouvidos não pareciam enganá-lo.
Acelerou a marcha, mantendo cuidado na direcção como se transportasse um corpo de fino cristal.
Finalmente parou. Tinha a porta da esquadra do bairro na frente, e ali entregou o perigoso passageiro sem que este deixasse de roncar. (Este o ruído insólito que havia chegado aos seus ouvidos atentos e o levara a concluir que o freguês dormia desabaladamente embalado pelo rodar do carro).
Quando a polícia arrancou da mão do embuçado a pistola que conservava ameaçadoramente sobre o peito e a substituiu por um par de algemas, Mourato tirou o boné e com um largo lenço estampado de vermelho enxugou o rosto e o pescoço repletos de suor e soltou, enfim, um suspiro de alívio.
O preso foi identificado como Morais Carlos. Não se soube se o homem tinha sido motivado por excesso de despesas do Natal que o deixaram sem dinheiro, se desejara apenas servir-se gratuitamente de um transporte: não respondeu ao interrogatório, porquanto, logo que se sentara em cadeira mais ou menos adequada, voltara a adormecer profundamente… Afinal, ali, tinha tempo de dormir.
Afinal era Noite de Natal; uma noite dedicada ao Amor, à Fraternidade… noite sem violências, noite sem crimes.