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2 de julho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 184

EFEMÉRIDES – Dia 2 de Julho
William Le Queux (1864 – 1927)
William Tufnell Le Queux nasce em Londres. Jornalista e escritor de 150 novelas na sua maioria mistérios, thrillers e espionagem. As obras de maior sucesso, escritas antes da 1ª guerra mundial, envolvem histórias fictícias de infiltração de potências estrangeiras ou possível invasão da Grã-Bretanha por parte da Alemanha. The Great War In England In 1897 (1894), The Invasion Of 1910 (1906), e The Seven Secrets (1903) são um verdadeiro êxito editorial na altura da sua publicação.

Mark Billingham (1961)
Mark Philip David Billingham nasce em Birmingham, Inglaterra. Actor, comediante é um autor bestseller de policiários. Cria série Tom Thorne, um detective londrino, iniciada em 2001 com Sleepy Head e com o 10º livro Good As Dead, publicado em Agosto de 2011. Mark Billingham escreve também os romances In The Dark (2008) e Rush Of Blood (2012) e, sob o pseudónimo Will Peterson, cria Triskellion, uma série de thrillers para crianças. A obra do escritor tem sido distinguida com vários prémios e nomeações: Scaredy Cat (2002) ganha o Sherlock Award para Best Detective Novel e é nomeado para o Gold Dagger da Crime Writers Association; LazyTbones (2003) ganha em 2004 Theakston’s Old Peculiar Crime Novel of the Year Award; Lifeless (2005) é nomeado em 2006 para BCA — Crime Thriller of the Year Award; Death Message (2007) ganha mais um Theakston’s Old Peculiar Crime Novel of the Year Award em 2009 e por fim In The Dark é nomeado em 2009 para o Gold Dagger.

Agnete Friis (1974)
Nasce em Copenhaga. Escritora e jornalista e escreve em parceira com Lene Kaaberbøl já referida nas efemérides de CALEIDOSCÓPIO 84 (clicar)



TEMA — ESTUDOS DE LITERATURA POLICIÁRIA — OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA NARRATIVA POLICIÁRIA CLÁSSICA (Parte II)
por M. Constantino

HISTORIOGRAFIA
Criação
Sequència
Anterioridade
Pós – Poe
Idade de Ouro
Futuro

1. É ponto assente que o criador ou pai do género foi Edgar Allan Poe (1809-1849), com a publicação no Graham's Magazine daquela que é considerada a primeira narrativa policiária — “Os Assassinatos da Rua Morgue”.
Poe, cria não só um novo género literário, como inventa o moderno detective ou investigador: Dupin — no dizer de Locassin: “um arquétipo literário; o detective amador, o homem que coleccionava enigmas como os outros coleccionavam objectos”.

2. Exemplo da narrativa policiaria semi-real, igualmente da pena de Poe, é “O Mistério de Maria Roget". Na verdade, o autor serviu-se de factos reais — o assassinato de Marie Cecília Roger; — extraído dos jornais da época, para idealizar toda uma narrativa e solução coerentes com o enigma. Sem contacto com o local em que o facto ocorreu ou com os envolvidos na tragédia, empiricamente, através do interferências e plausíveis, faz Dupin desvendar o enigma sem sair do seu domicílio.
Poe esfacela assim os limites entre o real e o ficcional.

3. Com anterioridade a Poe, tem-se admitido, não sem alguma razão, a existência de passagens literárias que bem se podem considerar mais ou menos detectivescas, pelo menos do ponto de vista da indução e dedução.
A história de “Daniel” e “Casta Susana”, no Antigo Testamento; Arquimedes no “Tratado de Arquitectura” de Vitrúvio; um texto de “Eneida” referenciado a uma dedução de Hercules sobre pegadas; os contos de “Os Três Chefes da Polícia”, e “Dalila”, nas “Mil e Uma Noites”; um conto de Canterbury, de Chaucer; Zadig, de Voltaire; etc, etc., são exemplos de observação e análise tão perfeitos como os constantes dos escritos de Poe e seus seguidores.

4. Têm igualmente importância, do ponto de vista em causa, “The Castle of Otranto” de Horace Walpole, “The Mysteries of Udolpho” de Ann Radcliffe, “Der. Geisterseher” de Schiller, e outros da época se bem que o enredo pouco tenha de policiário e muito de sobrenatural, mas a técnica da descoberta das soluções, para cada caso, é idêntica à usada pelos escritores de narrativas detectivescas.

5. Após Poe há um compasso substancial, porém, na segunda década do aparecimento do género que havia criado, há um movimento substancial, como se os autores reconhecessem enfim o valor daquele tipo narrativo. Desse arranque sobressai Conan Doyle através de Sherlock Holmes (1887), sem dúvida o mais famoso e perdurável das representantes. Todavia, se as histórias de Holmes mereceram destaque especial, outras são de recordar e reler; é, de resto, a Idade Notável da narração curta, a qual terminou com a I Guerra Mundial — o período, claro, não a narrativa…

6. No período entre as duas guerras “A Idade de Ouro”, revela-se a decadência imediata, na qualidade e número, da narrativa curta, prevalecendo na medida inversa a forma de romance.
É o período de Rinehart, Christie, Chesterton, Sayers, Carr, Queen, Van Dine, Simenon, etc., etc..
O género criou leis dedutivas rigorosas, um código de hábeis recursos e regras de jogo próprias, que são um perpétuo repto dedutivo á inteligència e imaginação dos inúmeros leitores.

7. Os intentos de violar as normas típicas da narração policiária ou de as reconverter, são patentes em Hammett e Chandler (máscara negra) e William Irish (suspense), influem particularmente na quebra da popularidade daquela.
Não faltam vozes (Jacques Barzun em “Catalogue of Crime” que avançam pelo seu desaparecimento. ou, discordantes (Julian Symons, em “Bloody Murder From the Detective Story to the Crime Novel: A History”).

8. A verdade, é que coexistindo com todas as tendências, continuam a escrever-se e a publicar-se, contínua e aceleradamente, narrativas, detectivescas. Todos os dias surgem novos autores, novos métodos de investigação consoantes com o processo técnico, novos tramas, e versões, que não afastam totalmente os tradicionais, demonstram o evidente Propósito da substância do género e excluem, desde logo, a sumamente improbabilidade do seu desaparecimento.

9. Algo, porém, é fundamental, Que os autores rectifiquem as intoleráveis e toscas redacções das suas histórias, não escrevam narrativas policiárias por desfastio entretinimento o por dinheiro, a boa literatura deve uma unidade absoluta, o tema é que pode variar. E não estamos sós quando afirmamos que o tema policiário é omais difícil de idealizar e de escrever, exige saber contar, saber escrever com arte e inteligência.
(continua)



TEMA — ANATOMIA DO CRIME — MENSAGEM TEVELADORA

Na madrugada de 2 de Novembro de 1917, em Bloomsbury, a oeste de Londres, um jardineiro que iniciava o trabalho, encontrou um pacote deixado ma orla do parque central de Regent Square. A curiosidade fê-lo descobrir um saco de carne, contendo o dorso e os braços de uma mulher. Colocado no saco, um bocado de papel comum a mensagem escrita a lápis “Blodie Belgiam”. Quando recuperou do choque, participou à polícia. Ainda havia de passar algum tempo para se encontrar a cabeça. No entanto encontrou-se no lençol que envolvia o dorso a marca da lavandaria (II H.), por onde se descobriu que se tratava da senhora Emilienne Gerard, de nacionalidade francesa, com residência no nº50 de Munster Square. Significativo foi o facto de não ser vista desde a noite de 31 de Outubro.
Um exame ao apartamento permitiu à polícia reunir algumas peças para recompor a história da desaparecida. O sorriso de uma fotografia de Louis Voisin — como se apurou — contemplava os agentes do rebordo da chaminé, onde fora colocada a moldura.
Era um francês expatriado, carniceiro de profissão, amante da vítima, residente numa cave em Charlotte Street que partilhava com uma amiga Berthe Roche.
Voisin não negara o conhecimento com Madame Gerard, havia estado com ela no dia 31 de Outubro e, sabendo que se ausentava para França em visita ao marido ofereceu-se para ficar com o gato de estimação. Não voltara a vê-la.
O lendário Inspector Chefe Frederick Porter Wensley da Scotland Yard assumiu a direcção da investigação. Informado pelo departamento que o desmembramento estava de acordo com os processos decidiu usados pelos carniceiros franceses convocou Voisin para o interrogatório na esquadra, do qual não obteve qualquer informação, a não ser o conhecimento já referido de que Emilienne tinha partido para França. No dia seguinte o Inspector decidiu efectuar uma experiencia que poderia relacionar, de forma concludente, o suspeito com o despojos encontrados em Regent Square.
Através de um intérprete, para não haver mau entendimento, perguntou a Voisin se tinha algum inconveniente em escrever as palavras “Blody Belgium”. Voisin acedeu e com a mão lenta de quem conhece apenas o alfabeto escreveu “Blodie Belgiam”. O erro e a letra coincidiam com a nota encontrada. Wensley pensou e disse que talvez não estivesse tudo bem, e tentasse escrever de novo. Escreveu cinco vezes com o mesmo erro. Na última escreveu praticamente o original. Tudo apontava para o culpado, mas não era prova para tribunal. Nem sequer se identificaram os despojos com segurança.
Pouco tempo depois apareceu um novo pacote com pernas, mas a chave do enigma, que era a cabeça identificativa continuava sem aparecer.
A conexão final foi estabelecida e o sargento detective Alfred Collins, recebeu ordens para visitar a adega de Charlotte Street e ao tirar a tampa de um barril, descobriu a cabeça e as mãos delatoras com as impressões digitais de Emilienne Gerard.
Quando preso e acusado, Louis Voisin limitou-se a encolher os ombros e a murmurar: — Má sorte! Fez uma declaração completa que envolvia Berthe.
Julgados, face à sentença, Voisin foi executado em 2 de Março de 1918. Berthe Roche, por participação no assassínio, foi condenada a sete anos de prisão, onde enlouqueceu, morrendo numa instituição de doentes mentais, onde fora internada.

Adega de Voisin - Foto da época

1 de junho de 2012

CALEIDOSCÓPIO 153

EFEMÉRIDES – Dia 1 de Junho
Pierre Souvestre (1874 - 1914)
Pierre Wilhem Daniel Souvestre nasce em Plomelin, Finistère, França. Advogado, jornalista e escritor é conhecido pela parceria que mantém com Marcel Allain para criar o anti-herói Fantômas. Fantômas surge em 1910, é um génio do crime, o mestre de todos os mestres e torna-se numa figura muito popular. Protagoniza 32 romances e vários filmes. Em Portugal também está editado o Fantomas. A edição mais antiga que é possível identificar data de 1914, uma publicação de Salazar Cardoso & Alves, do Porto e com o título Fantomas: Um Romance. Na década de 50 a Editorial Dois Continentes edita na Colecção Fantomas 21 romances de Pierre Souvestre e Marcel Allain. Em 1957 a Livraria Civilização substitui a Editorial Dois Continentes na publicação dos livros de Fantomas e não só reedita alguns títulos como completa a edição de toda a obra.

TEMA — ANATOMIA DO CRIME — A BALA QUE ESPEROU PELO ALVO CERTO
Brincar com o coração dos outros, especialmente com o coração de uma mulher apaixonada, nem sempre, ou nunca, é coisa acertada. Certo que quando Henrique Z. abandonou Violeta depois de três anos de namora, nunca lhe passara pela cabeça que ela fosse uma rapariga de “extremos” e se suicidasse. Acabara de o saber quando o irmão de Violeta, de pé na sua frente, lhe dera a cruel notícia com uma arma apontada ao seu peito, afirmando que o ia matar. Henrique julgou-se um homem morto. Não teve sequer tempo para balbuciar um arrependimento, quando o rapaz puxou o gatilho. Sentiu um ardor no peito e caiu desmaiado. Todavia, a bala roçara pelo peito e fora cravar-se numa árvore próxima. Não se apercebeu disso o irmão da rapariga que julgando ter cumprido a sua missão, voltou a arma contra si e disparou um tiro fatal no ouvido.
Quando acordou do desmaio, Henrique deparou-se com a tragédia aliás fora uma dupla tragédia. Verificou que a ferida no peito não era grave apenas uma queimadura, um risco transversal que ficaria para sempre.
Durante os vinte anos seguintes Henrique não voltou a pensar no assunto. Ninguém lhe pedira contas pelo sucedido aos irmãos suicidas. As próprias autoridades policiais aceitaram a sua “falta de conhecimento” das razões do duplo suicídio.
Um dia resolveu fazer uma limpeza, incluindo cortar a árvore, agora muito maior, junto da qual vivera um momento único da vida — encarar a morte de frente. Abriu um buraco no troco e utilizando dinamite encheu o buraco e acendeu o rastilho. A explosão atirou fragmentos em todas as direcções e levou a bala a atingir em cheio o coração de Henrique, matando-o instantaneamente — a bala encontrara enfim o alvo certo pelo qual esperara vinte longos anos!



TEMA — CONTO POLICIÁRIO DEDUTIVO — ARROZ PARA DRAGÃO DOURADO
De M. Constantino

No rosto sem beleza, um ar melancólico denunciado pelos olhos oblíquos, escuros e nostálgicos. A cabeça rapada estava coberta por um chapéu de palha: a bata amarela atada à altura dos rins e as calças de algodão azul enroladas até aos joelhos.
Desde a madrugada que seguia por entre colinas e vales com seus campos prontos para a sementeira do arroz. Sentiu fome. A trouxa, pendurada às costas, não continha alimento. Até então, comera escassos e esquecidos frutos silvestres, raras, muito raras tigelas de arroz lhe haviam sido estendidas.
Parou olhando os pés grandes e bem feitos. Sorriu suave.
Um trovão estalou ao longe, silenciando os pássaros. O orvalho delicado da chuva que há uma lua acompanhava o seu itinerário, acariciou-lhe o rosto. Vozes vieram de perto. Levantou a cabeça. Ao lado do carreiro, três homens de rabichos soltos, vestidos de desbotado algodão castanho, sentavam-se sobre frágeis ramos de verde salgueiro.
Aproximou-se humilde. Olhou nos olhos, um por um, os velhos camponeses imóveis. Levantou os olhos em prece.
- Irmãos, poderei merecer a graça de um pouco de arroz? Sou Kim. Um noviço no templo do Lótus Sagrado.
- Oh, sim. Ouvi falar de ti! És aquele a quem chamam o Dragão Dourado, Símbolo da Sabedoria Celeste – volveu o camponês de rosto magro, corpo esquelético, levantando-se.
- Sou Li – acrescentou.
- O Mestre o disse – respondeu Kim. – Mesmo num monte de esterco a flor do lótus cresce cheia de doce perfume e deleite; também o discípulo do Iluminado brilha entre os que andam nas trevas.
- Sou Lan. Não podemos ajudar-te! – disse o homem baixo, rechonchudo, de boca enorme, rasgada de orelha a orelha, pousando a cabeça entre os joelhos erguidos.
- Chang é o meu nome – disse o terceiro puxando pelos pêlos brancos de venerável barbicha. Passivamente me resigno à dor, aceitando-a como inevitável. Mas, oh Cheio de Exaltação, como mitigar a fome dos nossos? Há duas vezes os dedos das minhas mãos trémulas, revolvíamos a terra. Quando o dia se perturbou com a chegada da noite, afastámo-nos para recolher bambus tenros. Regressámos. O saco onde guardávamos o arroz para sementeira tinha desaparecido. Yu, o lenhador, o único homem vivo que vimos em todo o dia, criticou-nos a suspeita de que tirara o saco. Ameaçou-nos. Regressámos à aldeia, tristes mas confiados que o remorso o fizesse devolver-nos o saco. Hoje viemos para lhe suplicar a devolução em nome de trinta filhos e oferecer-lhe parcela da colheita. Quando chegámos, Lan avisou-nos de que Yu deixara a cabana junto do tronco carcomido, mostrou-nos os bagos esparsos que vão daqui à cabana. Deduzimos que Yu levou o saco às costas fortes sem reparar que tinha um pequeno buraco por onde saiu o arroz acusador.
Li mostrou os grãos sobre a terra lamacenta. Kim seguiu os indícios reveladores até à cabana abandonada. Ajoelhou-se na estrada. De coração perturbado e rosto afogueado, voltou para junto dos camponeses.
- Irmãos. Quem imagina a verdade no erro e vê erro na verdade, nunca chega à verdade, mas segue vãos desejos. Yu não levou o saco. O homem insensato, o que almeja a ventura por meios ilícitos está entre vós. Não o castigueis. O bicho-da-seda tece o seu casulo e fica dentro, assim o ladrão ficará preso ao seu acto. Permitis que recolha e me alimente de alguns bagos do arroz caído?
Os três camponeses olharam-se incrédulos.
Kim baixou-se. Apanhou pequena quantidade de bagos e esfregando uma mão na outra fez soltar as ténues cascas. Soprando-se levou à boca os cristais brancos, mastigando-os.
Afastou-se, lento e firme, sem olhar para trás. Parou, reflectiu e murmurou, em auto-crítica.
- O Mestre o disse, não esqueças os teus revezes nos momentos de êxito. Tudo o que somos é resultado do que temos pensado; encontra-se em nossos pensamentos e é edificado com os nossos pensamentos.
Retomou a marcha.
Kim voltou a ouvir a voz cansada que gritava.
- Uh! Uh!
Chang, tanto quanto as entorpecidas pernas o permitiam, aproximava-se de mãos estendidas
- Aguardai, aguardai, não nos deixeis na ignorância. Indicai o pecador.
Kim reflectiu.
- O Mestre o disse: a peçonha não afecta a mão que não tem ferida, nem recai o mal sobre quem não o comete. Se um homem ofende uma pessoa inofensiva, inocente e pura o mal recai sobre o néscio que o cometeu, assim como a poeira que alguém lança contra o vento. Vede, o homem não foi justo. Tirou o saco e fez gerar a infâmia sobre Yu.
“Tu próprio o disseste, irmão. Duas vezes os dedos das tuas mãos o arroz desapareceu. Como poderiam manter-se tantos dias os bagos abandonados, sem que os pássaros os levasse nos seus bicos ligeiros e esfomeados? Como não te lembraste, duas vezes os dedos das tuas mãos, não tivesse germinado o arroz na terra enlameada? Não viste tu as minhas mãos facilmente soltarem as cascas frágeis? Hoje mesmo o impuro se deleitou, regozijou traçando uma trilha acusadora para Yu. Irmão, tu e Li, não o poderiam ter feito sem o conhecimento de todos; tu o disseste, Lan vos avisou que Yu deixara a cabana, chegou primeiro, portanto Lan é impuro. Em verdade, o Mestre o disse: assim como a chuva penetra uma casa de ruim telhado, assim a má acção penetra a mente irreflectida”.
Caminhando, Kim breve se perdeu na distância…



20 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 141

EFEMÉRIDES – Dia 20 de Maio
Margery Allingham (1904 - 1966)
Margery Louise Allingham nasce em Ealing, Londres. Filha de mãe escritora e pai escritor e editor, com 19 anos publica a primeira novela, Blackkerchief Dick, seguem-se algumas peças, sempre com temas relacionados com o oculto. Em 1927 inicia-se na narrativa policiária com The White Cottage Mystery, publicada em episódios no Daily Express e mais tarde editada em livro. Cria a série Albert Campion com The Crime At Black Dudley (1929) que também é editado nos EUA com o título The Black Dudley Murder. Esta série, com 19 romances publicados, traz o sucesso à autora que é considerada como uma das rainhas do crime da Golden Age a par de Agatha Christie, Dorothy L Sayers e Ngaio Marsh. Margery Allingham escreve ainda 7 romances e uma dúzia de short stories, algumas também protagonizadas por Albert Campion. O livro The Tiger In The Smoke (1952) está incluído na lista dos 100 melhores romances de crime. Em Portugal estão editados:
1 - Flores Para O Juiz (1954), Nº36 Colecção Xis Editorial Minerva. Título Original: Flowers To The Judge (1936). Reeditado em 1990 pela Livros do Brasil com Nº514 Colecção Vampiro. É o 7º livro da série Albert Campion
2 – Homicídio No Campo (1960), Editorial Minerva. Título Original: The Case Of The Late Pig (1937). Reeditado em 1990 pelo Círculo de Leitores e pela Terramar. É o 8º livro da série Albert Campion
3 – Estrada Para A Morte (1988), Nº490 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: Mystery Mile (1930). É o 2º livro da série Albert Campion
4 – Crime Na Alta Roda (1989), Nº509 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: Sweet Danger (1933) também editado com o título The Fear Sign. É o 5º livro da série Albert Campion
5 – Polícia No Funeral (1990), Círculo de Leitores. Título Original: Police At The Funeral (1931). É o 4º livro da série Albert Campion
6 – Cuidado Com A Senhora (1990), Nº2 Colecção saar Sociedade Anónima de Alto risco Editoria Terramar. Título Original: Look To The Lady (1931) também editado com o título The Gyrth Chalice Mystery. Reeditado pelo Círculo de Leitores em 1990. É o 3º livro da série Albert Campion
7 – Morte De Um Fantasma (1990), Círculo de Leitores. Título Original: Death Of A Gosth (1934). É o 6º livro da série Albert Campion
8 – Morte Na Mansão Branca (1990), Nº519 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: Dancers In Mourning (1937), Também editado com o título Who Killed Chloe? É o 9º livro da série Albert Campion
9 – Mistério No Mundo Da Moda (1992), Nº543 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: The Fashion In Shourds (1938). É o 10º livro da série Albert Campion
10 – Morto Duas Vezes (1994), Nº563 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: a confirmar The Case Of The Late Pig ou Work For The Undertaker
11 – A Bolsa do Traidor (1995), Nº579 Colecção Vampiro, Livros do Brasil. Título Original: Traitor’s Purse (1938). É o 11º livro da série Albert Campion
12 – O Mistério Da Casa De Campo (1995), Nº47 Colecção Bolso de Noite, Europress. Título Original: The White Cottage Mystery (1928)
13 – Morto Duas Vezes (2005), Nº19 Colecção 19 mm, Público. Título Original: More Work For The Undertaker (1948). É o 13º livro da série Albert Campion


Fletcher Flora (1914 – 1968)
Nasce em Labette County, Kansas EUA. Educador e professor em escolas públicas, nas décadas de 40 e 50 escreve 16 romances policiários; publica mais de 60 short stories, dispersas por várias revistas da especialidade. È o criador do detective privado Gasper Vane.


Boris Akunin 1956
Grigory Shalvovich Chkhartishvili nasce em Tbilisi, República da Geórgia. Filologista, ensaística, crítico e tradutor de japonês, publica o primeiro romance policiário em 1998, Azazel, dando início à série Erast Fandorin, um investigador, criminal nascido em 1856 que integra a Divisão Criminal da Policia de Moscovo esta série tem já 11 títulos publicados. Boris Akunin cria ainda a série Sister Pelagia — 3 títulos publicados — uma freira ruiva, professora numa escola de raparigas que resolve crimes misteriosos. É um dos autores mais lidos na Rússia, tem várias obras adaptadas à televisão e ao cinema. Em Portugal estão editados:
1 – A Rainha do Inverno (2006), Nº83 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença. Título Original: Azazel (1998); título tradução inglesa: The Winter Queen. Nomeado em 2003 para a Gold Dagger Award
2 – Jogada de Mestre (2008), Nº99 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença. Título Original: Turietsky Gambit (1998)

TEMA — ANATOMIA DO CRIME — JUIZ DETECTIVE
Perante o juiz está o trabalhador cuja queixa é objecto de julgamento.
O queixoso reclama de haver perdido a vista esquerda numa explosão na fábrica em que trabalhava, os advogados da fábrica afirmam que é um dissimulador. O juiz entende que a prova médica resolveria a questão, prova que as partes não apresentam. Todavia, o juiz, velha raposa com aspirações a detective amador, tinha ideias próprias e não ia perder tempo.
Mandou que o queixoso fosse retirado do tribunal e que fosse colocado na sala com um quadro preto no qual escreveu uma sentença prévia com um giz fluorescente, tapando a inscrição com um pano. Quando o trabalhador reentrou por sua ordem, ordenou que tapasse o olho direito e lesse o que estava escrito, ao que o queixoso respondeu que não podia ler por ter perdido o olho esquerdo na explosão. O juiz fez um gesto de afirmação e o escrivão, por ordem daquele, colocou no rosto do trabalhador uns óculos pedindo que lesse o que estava escrito, usando ambos olhos, uma vez que não se queixava da perda das duas vistas. O operário não hesitou em ler o que estava escrito.
O juiz corou de indignação Não só ilibou a fábrica da acusação, como condenou o queixoso a multa e custos e dez dias de prisão por tentativa de iludir o tribunal.
Os óculos que o empregado usara tinham uma lente branca no olho esquerdo e outra vermelha para o olho direito. Ora se fosse cego do olho esquerdo não poderia ter lido as letras verdes do quadro, já que o vermelho da lente filtra completamente, tornando-as invisíveis aos raios luminosos verdes como os daquele giz e assim o campo visual do olho direito só mostraria o negro do quadro.
Faz bem por vezes, não se julgar mas investigar o que se julga.

16 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 137

EFEMÉRIDES – Dia 16 de Maio
Thomas Gifford (1937 – 2000)
Thomas Eugene Gifford nasce em Dubuque, Iowa, EUA. Autor de romances de mistério e thrillers, publica o primeiro livro em 1975, The Wind Child Factor. No entanto é com The Glendower Legacy (1978) que se torna conhecido internacionalmente; este livro é mais tarde adaptado ao cinema com o título Dirty Tricks. Na obra do escritor destaca-se ainda The Assassini, um thriller passado em torno do Vaticano, publicado em 1990. Thomas Gifford escreve no total 9 policiários: na série John Cooper, The Wind Child Factor (1975) e The First Sacrifice (1994); na série Ben Driskill, The Assassini, (1990) e Saint’s Rest (1996); e ainda os romances, The Cavanaugh Quest (1976), Man From Lisbon (1978), The Glendower Legacy (1978), Hollywood Gothic (1980) e Praetorian (1993). O escritor utiliza também os pseudónimos Thomas Maxwell e Dana Clarins. Como Thomas Maxwell publica Kiss Me Once (1986), The Saberdene Variations (1987), Kiss Me Twice (1988) e The Suspense Is Killing Me (1990). Como Dana Clarins publica Woman In The Window (1984), Guilty Parties (1985) e The Woman Who Knew Too Much (1986). Em Portugal estão editados:
1 – O Homem de Lisboa (1977), Nº138 Colecção Dois Mundos, Livros do Brasil. Título Original: Man From Lisbon (1978). Editado também pela Dom Quixote em 2007 com o título Quinhentos Escudos Falsos
2 – Assassini (2005), Bertrand Editores. Título Original: Assassini (1990),
3 – Crime Na Cidade de Saints Rest (2008), Colecção Grandes Romances, Bertrand Editores. Título Original: Saint’s Rest (1996)




TEMA — AS EXECUÇÕES
Depoimento de Sir Sidney Smith professor de Medicina Legal da Universidade de Edimburgo.
A primeira vez que vi enforcarem um homem e achei a experiência desagradável, especialmente porque eu contribuíra, em parte, para que tal acontecesse. Desde então presenciei outras execuções, mas nunca perdi a sensação de pavor ao ver um homem cheio de saúde entrar num quarto, sabendo que, dentro de poucos segundos, estaria morto.
A morte, dizia o médico da prisão, era instantânea, mas quando tomei o pulso ao executado e o senti bater ainda, fracamente, admirei-me da calma certeza com que o meu colega médico proferiu o seu veredicto. Sem dúvida que com o pescoço partido e a medula espinal também seccionada, a morte é quase tão instantânea quanto possível; mas, no momento em que uma pessoa morre, cada célula do seu corpo está viva e é a persistência de vida, post-mortem, nos tecidos, que nos permite formar uma opinião acerca de há quanto tempo o corpo está (aquilo a que nós chamamos) morto. Gostaria de saber quando é que a vida cessa por completo. Quando uma pessoa é enforcada, o coração (tal como no caso de Higgins) continua geralmente a bater, durante um período de tempo variável; e tem sido assunto de frequentes debates entre os biologistas, saber se, continuado o sangue a circular, poderá haver consciência momentânea depois do pescoço partido.
Na decapitação trata-se também de saber se a cabeça ao cair no cesto, ainda conserva um estado de consciência suficiente, para se admirar do que lhe aconteceu. Em França, tem havido uma grande controvérsia acerca da persistência momentânea de vida depois da decapitação. Depois da execução de Charlotte Corday, em 17 de Julho de 1793, condenada à guilhotina pelo assassínio do político Marat, um dos executores ergueu-lhe a cabeça decapitada, pelos cabelos, e perante a multidão esbofeteou-a. O rosto, que estava pálido, mal recebeu a bofetada corou visivelmente e a sua fisionomia aparentou os mais inequívocos sinais de indignação. Todos os espectadores ficaram impressionados pela mudança de cor e com altos gritos pediram vingança contra essa barbaridade cobarde e atroz.
Esta é a descrição feita pelo Dr. Lue, proeminente autoridade médica, em Paris, nesse tempo. Ele e, depois dele, muitos outros médicos cirurgiões, tanto em Franca como na Alemanha, sustentaram que, no cérebro e nos nervos da vítima decapitada, subsiste um certo grau de pensamento apresentando o caso de Charlotte Corday como prova dessa doutrina. Mas nunca saberemos o que uma cabeça realmente sente depois de separada do corpo — ou antes, se algum de nós o descobrir, nessa altura já será demasiado tarde para contá-lo.
Há uma história, possivelmente apócrifa, que conta que, quando Sir Everard Digby foi executado, por cumplicidade na Conspiração da Pólvora, os carrascos arrancaram-lhe o coração e exibiram-no ao povo, exclamando “Este coração é dum traidor” — ao que, ouviram a cabeça responder distintamente: “Mentes”.


TEMA — ANATOMIA DO CRIME — CRIME E CONFISSÃO
No ano de 1945, um nigeriano de nome Odiase, persuadiu-se de que lhe tinham feito um feitiço e que o mesmo agia contra a sua já embaraçada vida. Sabia quem eram os autores, seus parentes próximos. Tentou anular o feitiço recorrendo a vários feiticeiros famosos, até ficar sem uma única moeda. Continuava a sentir o peso das influências maléficas que o esmagavam, debilitando-o de corpo e de espírito. Para o seu torturado espírito, só uma solução se apresentava: tinha de matar o seu irmão, a sua cunhada e a sua sogra. Mas Odiase, não obstante estes pensamentos, não obstante os seus instintos primitivos, não era no fundo um criminoso, e respeitaria a lei. Como era analfabeto procurou um menino a quem, sob ameaça de morte, ditou uma confissão. Deu algumas moedas ao amedrontado rapaz e disse-lhe que não abrisse a boca senão depois do crime.
Armou-se de uma comprida faca e de fósforos. Ninguém o viu aproximar-se da cabana dos seus parentes. Era uma cabana nativa feita de bambus. Acendeu os fósforos ateou fogo à cabana que logo se transformou numa fogueira. Três pessoas escaparam-se pela porta, aos gritos, procurando a salvação, mas a morte esperava-os na ponta da faca do atormentado nigeriano. O fogo atraiu a polícia. Odiase foi ao seu encontro entregando o caderno escolar:
— Aqui está tudo escrito, uma confissão completa.

Pintura de Bassey Effiong Ndon - artista nigeriano


2 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO 123

EFEMÉRIDES – Dia 2 de Maio
Charlotte Armstrong (1905 - 1969)
Charlotte Armstrong Lewi nasce em Vulcan, Michigan, EUA. Publica em 1942 o primeiro livro Lay On. Mac Duff!, com que inicia a série Mac Dougall Duff, um conjunto de 3 romances e escreve mais 26 livros como Charlotte Armstrong ou sob o pseudónimo Jo Valentine. A autora recebe o Edgar Award em 1957 com Dram of Poison: é nomeada em 1858, 1966 e 1967 para Best Short Story Award com And Already Lost, The Case For Miss Peacock, The Splintered Monday e em 1968, para Best Novel com 2 romances: The Gift Shop (1967) e Lemon In The Basket (1967). Em Portugal estão editados:
1 – O Insuspeito (195?), Nº66 Colecção Vampiro, livros do Brasil. Título Original: The Unsuspected (1946)
2 – A Sombra do Passado (1955), Nº43 Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: The Chocolate Cobwebb (1948)
3 – Veneno (1959), Nº86 Colecção Xis, Editorial Minerva. Título Original: The Dram Of Poison (1956)
4 – A Ovelha Negra (1969), Nº106 Colecção Rififi, Editora Íbis. Título Original: Lemon In The Basket (1967)
5 – A Loja de Recordações (1969), Série Policial Best-Sellers, Galeria Panorama. Título Original: The Gift Shop (1967)


Martha Grimes (1931)
Nasce em Pittsburgh, Pensilvânia, EUA. Começa por escrever poesia, mas cria em 1981 a série Richard Jury, um inspector da Scotland Yard que, em conjunto com o aristocrata Melrose Plant, resolve crimes à boa maneira britânica em 22 livros, publicados ao longo de quase 30 anos. Escreve ainda as séries Emma Graham e Andi Olivier; a autora tem 30 romances publicados com mais de 5 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Martha Grimes recebe em 1983 o Nero Wolfe Award para o melhor romance do ano com The Anodyne Necklace e acaba de receber este ano a maior distinção atribuída pelos Mystery Writers of America, o Grand Master Award entregue no passado dia 26, em Nova Iorque, no The Edgar Banquet. Por cá estão editados:
1 – Jogo de Alto Risco (2000), Nº22 Colecção Fio da Navalha, Editorial Presença. Título Original: The Case Has Altered (1977)
1 – Dust (2000), Nº5 Colecção Sombra de Dúvida, Editorial Estampa. Título Original: Dust (2007)

TEMA — ANATOMIA DO CRIME — O DESPERTADOR DESAPARECIDO
Bob Irwing, jovem e talentoso escultor de Nova Iorque, apaixonou-se dramaticamente pela filha mais velha da senhora Mary Gedeon. Repelido, afastou-se. Em Março de 1937 voltou disposto a tudo e ao saber, por aquela senhora, que a filha se casara e fora viver para outra cidade, Bob estrangulou-a, colocando-a debaixo da cama e começou a procurar por toda a casa.
Encontrando Frank Byrnes, um pensionista, num dos quartos, pensando que ele fingia dormir, golpeou-o repetidamente com um furador de gelo.
Esperou escondido.
Por voltas das três da madrugada, viu chegar Verónica, a irmã mais nova da sua apaixonada, um lindo modelo conhecidíssimo nos meios artísticos. Enquanto ela se preparava para dormir, estrangulou-a e estendeu o corpo desnudo sobre a cama.
Saiu levando um despertador. Nunca se soube a razão do gesto insólito.
Como pistas, a polícia tinha: a falta do despertador, uma luva cinzenta, duas barras de sabão, e a circunstância do cachorro da senhora Gedeon não ter ladrado, o que indiciava que o criminoso não era um estranho.
A pesquisa dos antigos pensionistas levou a polícia até Irwing — este usava sabão para modelar. Pouco depois encontrou-se uma mala abandonada, que lhe pertencia, e onde estavam o despertador e o outro exemplar da luva. No entanto o homem desaparecera.
A história era sensacional e todas as revistas e jornais a reproduziam, transformando cada leitor num detective…
E foi uma empregada curiosa de um hotel de Cleveland que encontrou Irwing transformado em Bob Murray, criado de mesa.
Sabendo–se observado Bob desapareceu… por pouco tempo.
Foi condenado a prisão perpétua e terminou os seus dias num hospital para criminosos.
M. Constantino
Robert Irwing


TEMA — O CRIME NA LITERATURA NÃO POLICIÁRIA — FOME!
Extracto de Contos da Montanha de Miguel Torga, aconselhamos a ler na íntegra.
A mulher, sem migalha de pão na arca e sem pinga de azeite na almotolia, sabia bem que o remédio habitual daquelas penúrias era ir buscá-lo onde o houvesse. Mas quando o homem, a meia voz, começou a repisar a ideia, desaprovou mais uma vez o projecto sacrílego. À Senhora da Saúde, não.
O Faustino nem a ouviu, ocupado como estava no labor de semear a boa semente na terra podre dos últimos escrúpulos. Debruçado sobre as pernas, com os dedos dos pés a espreitar das meias rotas, continuou a aquecer-se aos tições apagados, a chupar a pirisca do cigarro e a enumerar uma por uma as mil vantagens do negócio.
Por volta da meia-noite as derradeiras amarras da consciência acabaram de ceder. Raios partissem as horas que gastara a pensar na morte da bezerra! Há certas alturas em que a gente, em vez de miolos, parece que tem aranhas no toutiço!
O temporal bramia pela aldeia fora. Ouvia--se a nortada a pregar nos braços dos castanheiros e as bátegas a cair nas estrumeiras encharcadas. Um taró de repassar fragas.
Faustino, vencidos cautelosamente os cem metros da quelha em que morava, meteu-se à serra. Apesar de o vento galego o empurrar para trás, para o frio enxuto da casa, caminhava depressa. Uma vez que encontrara forças para tomar a única resolução acertada, era preciso não demorar.
Num ímpeto, chegou-se à porta e meteu-lhe o ombro. Pois claro, como tinha previsto… Escancaradinha! Com a respiração suspensa e todo num formigueiro, entrou de rompante no poço da escuridão.
Deu alguns passos. Como o fósforo estava no fim e já lhe aquecia os dedos, riscou outro. Menos inseguro, subiu as escadas do altar de S. José, logo à entrada. E, quase serenamente, acendeu a vela dum castiçal.
Com passos de lã, chegou-se. Caramba, seria que não estivesse a abarrotar?! Pôs a luz no chão, e meteu mãos à obra. Se calhar tinha que escaqueirar a tampa à martelada… Mas não é que a fechadura parecia de papelão e cedia ao cinzel sem resistência nenhuma?! Tudo às mil maravilha… Um mês de tripa forra ninguém lho tirava.
Desgraçadamente, a caixa estava limpa. Ou fora roubada, ou a esvaziara o padre Bento na véspera, ou então já não havia fé neste amaldiçoado mundo. Ah! Mas ele, Faustino, não se deixava enganar assim. Não. Tivesse a Senhora da Saúde paciência. Lá pouco dele, isso vírgula! Vinha com boas intenções. Obrigavam-no, pronto: ia o que houvesse, e passava tudo a patacos.
Pegou de repelão no castiçal e avançou indignado para o altar mor. Não acreditava que no sacrário a miséria fosse também assim
Era.
Ladrões! Filhos duma grande… Nem ao menos o cálix! O que vale é que havia ainda a sacristia para revistar. E que não estivessem lá os apetrechos devidos! Ia a casa do abade, que lhe havia de pôr ali o que pertencia à santa… O cálix, a cruz, o turíbulo, tudo. E a bagalhoça, claro. Pouca vergonha!
Pôs o castiçal no chão, soprou à vela, puxou a porta e saiu.
O temporal redobrara de fúria. A atravessar o adro, com a desilusão a percorrer-lhe as veias, é que via bem como a escuridão era cerrada e como a chuva lhe trespassava o corpo. Porca de vida! Um homem a fazer por ela, a aguentar no lombo uma noitada daquelas, para ao cabo dar com o nariz no sedeiro!
Pela manhã ardia em febre. E daí a seis dias, depois de um cáustico lhe abrir no peito uma bica de matéria e de o barbeiro de Parada o ter desenganado, foi preciso chamar o confessor, a ver se ao menos se lhe podia salvar a alma.
Veio então o padre Bento, manso, vermelho, tranquilizador. Mas o Faustino delirava. E mal o santo homem, de sobrepeliz, lhe entrou pelo quarto dentro, arregalou os olhos, inteiriçou-se no catre, apontou-o à mulher e aos circunstantes, e com a voz toldada da broncopneumonia, rouquejou:
— Ladrão! Prendam-no, que é ladrão!