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18 de junho de 2016

6º EPISÓDIO (FINAL) - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO

 Um desfecho imprevisível


A situação parecia estar complicada. O marido a chegar a casa e encontrar na cama com a mulher um tropa.
 Costa só veio a saber que Sesinando era tropa depois da Milú ter contado a história toda de uma ponta à outra.
 Costa continuava com a mala na mão, a ouvir a história, contada pela Milú, enquanto o alferes Sesinando, encolhido, quase desaparecia por entre os lençóis.
 Costa, posou a mala, finalmente e afirmou:
 − Vamos lá resolver o caso. Se houve mergulho no lago tem que haver roupa molhada dos dois. Se isso se confirmar a história está verosímil e eu até posso ir ao Lago do Campo Grande confirmar o acidente. Não vejo nada de mal na história mas já agora gostaria de saber quem é o senhor que se meteu na minha cama. Isto é se não se importam e se não incomodo!
 O alferes apresentou-se:
− Apresenta-se o alferes Sesinando, 3ª companhia dos Comandos da Amadora. A história que a menina Milú acaba de contar é perfeitamente verdadeira e a minha relação com ela tem sido do maior respeito. Convidei-a para dar uma voltinha de barco na melhor das intenções. Desembarquei ontem do navio que me trouxe de volta ao puto. Amanhã entro na peluda. Isto é, fico livre da tropa.
Isto tudo tem a ver com o meu saudoso gosto por iscas com elas e recomendaram-me a casa de pasto O Retido do Quebra Bilhas, não sei se conhece…



Costa sentou-se na cama e retrocou:
− Não conheço eu outra coisa. Cheguei agorinha de Cabo Verde e estava a pensar ir lá comer um cozido. Hoje é dia. Meu caro amigo, fazem lá um cozido de estalo!

Fonte: Loja Cão Azul

Sesinando acrescentou: 
− Acontece que tenho a roupa toda molhada e só lá para a tarde é que fica seca…
− Ó MIlú vê lá se arranjas aí um fato meu, velho, que lhe sirva e mais o resto da roupa. Que número calça o meu alferes?
− 41. Biqueira larga.
− Óptimo, eu calço 42. Fica-lhe a crescer um pouco mas não caem dos pés! Vamos lá então todos almoçar que já estou cá com uma larica…

Dali ao retiro do Quebra Bilhas era um pulinho. Até servia para abrir o apetite.
E lá foram os três mais o canito almoçar ao Quebra Bilhas.

Fonte: Blogue Restos de Colecção



Campo Grande anos 60
Fonte: Pinterest



Campo Grande/Av. Brasil
(perto do extinto Quebra Bilhas)
Foto Onaírda






Sobre o Quebra Bilhas 2 (Clicar)

FIM

11 de junho de 2016

5º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO


Ainda no Lago do Campo Grande

O alferes Sesinando, a menina Milú e o canito Lanudo boiavam no Lago do Campo Grande com grande espalhafato. O barco voltara-se e os remos escaparam-se.
Os tripulantes dos outros barquinhos tentavam aproximar-se e salvar os náufragos.

Lago do Campo Grande. Fonte: Diário de Notícias


Milú gritava, o cão gania e o alferes tentava puxá-los para terra.
A queda na água não chegava para afogar ninguém, mas a roupa essa ficava completamente encharcada e a colar-se ao corpo. Um casal em terra sorria.
O encarregado dos barquinhos rapidamente foi buscar os três náufragos e levou-os para uma casinha ao lado da bilheteira onde lhes forneceu umas mantas.
O alferes Sesinando culpava-se e pedia desculpa pelo banho forçado mas nada podia modificar. O que estava feito, estava feito. Milú pediu ao encarregado para chamar um táxi e convidou o alferes para ir também.

Taxi Anos 60. Fonte: http://portalclassicos.com/

E lá foram os três embrulhados em finas mantas até à Av. De Roma.
 Chegados ao 1º andar, Milú indicou ao Alferes uma casa de banho. E desenvolta acrescentou: Depois do banho deite-se na cama enquanto eu vou arranjar no roupeiro uma roupa do meu marido que talvez lhe sirva, pelo menos enquanto a sua seca. Eu também vou na outra casa de banho. Esteja à vontade.
 O alferes até nem tinha alternativa. Estava encharcado até aos ossos e  os sapatinhos novos, de verniz, estavam uma desgraça. Pensou se o marido da Milú não teria também uns sapatinhos tamanho 41… já agora, se não incomodasse muito… pensou e sorriu!




Assim que se lavou e limpou correu para o quarto da Milú e meteu-se entre os lençóis, obviamente como viera ao mundo. Já estava quase a passar pelas brasas quando surgiu a Milú também sem roupa e correu metendo-se na cama ao lado do alferes.

Milú retirou um braço de dentro dos lençóis e apontou ao alferes:

Meu amigo, nada de intimidades. Somos só amigos. Ponto final.

O Alferes Sesinando sorriu e fechou os olhos. Que mais lhe haveria de acontecer?
Cinco longos minutos se passaram. Num silêncio profundo que pairava no ar alguém meteu a chave à porta.
Lanudo correu ladrando farejando algo.
O Sr. Costa surgiu no quarto, de mala de viagem na mão, chave na outra e um olhar basbaque. Abriu a boca estupefacto e balbuciou:

 Mas o que é que se está aqui a passar?

O cão veio abanar a cauda e ladrar ao dono, feliz.
O Sr. Costa é que não parecia muito agradado.  
                       
 (fim  do 5º episódio)

4 de junho de 2016

4º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO

Amores de Milú


Ainda não vos falei do passado da menina Milú. Sei do vosso interesse e por isso deixei os intérpretes a enxugarem-se no Lago do Campo Grande para vos pôr ao corrente da curta mas já exuberante vida da menina Milú.

Maria de Lurdes fez a escola no Maria Amália em Lisboa e aos 16 anos teve o primeiro desgosto de amor, dos muitos que vieram depois.


Liceu Maria Amália
Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/


O seu namorado − veio a saber mais à frente −  utilizara-a como cortina de fumo pois fora apanhado no Parque Mayer com um colega aos beijos. Uma amiga viera piedosamente avisá-la.


Teatro Maria Vitória - Parque Mayer
Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/


Depois foi um pegador de touros. Era um rabejador. Não dava a cara ao touro, pegava-o pelo rabo, o que evitava levar uma cornada. Salvador era um lindo moço. De cabelo louro escorrido e de risco ao meio. Ao longe na praça de touros parecia um pajem. Porém, o namoro durou pouco.
Salvador tornara-se aborrecido. Só gostava de a ter ao colo e quando ela acedia começava a imitar a corneta do inteligente como se fosse a hora da pega.
A primeira vez tivera piada, depois era uma maçada. Mandou-o rabejar para outro lado.   

Cartaz de Tourada
Fonte: Correio do Ribatejo


Milú tinha um dia prometido a Santa Engrácia de quem era devota, que levaria a virgindade até à noite do casamento. Como mandavam as regras da Santa Madre Igreja. Queria seguir a vida de Santa Engrácia a virgem mártir se fosse necessário. Milú ia à missa todos os domingos e até tinha feito a comunhão. Porém os anos foram passando e Milú já com 27 anos começava a ver que não lhe aparecia namorado de jeito.


Igreja de Santa Engrácia
Fonte: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/


Um dia em que estava no Café Londres a tomar uma bica foi-lhe apresentado o Sr. Costa, um abastado construtor civil, homem já entrado na idade e que, soube depois, tivera já em adulto papeira que influenciou o normal funcionamento dos órgãos reprodutores. 

Esta última parte da infertilidade estaria para provar e a sua amiga Manuela que o apresentou acabou dizendo não ter lá muita certeza se a doença provocara mesmo algum distúrbio ao Sr. Costa.
Veio a saber depois que ele tinha mulher e filhos em Tomar coisa que o próprio não desmentiu quando foram ao cinema Império ver um filme de amor.

Costa abriu o jogo. Queria ter em Lisboa um aconchego. Um ombro amigo, uma amiga que lhe tratasse bem e que soubesse dirigir um apartamento mobilado à maneira. Em troca nada pedia senão a sua boa disposição e alegria de viver. Nada mais.
Milú topou o jogo e embarcou no negócio. Com uma condição. Ela queria continuar virgem até à consumação do casamento. Costa fechou o negócio.

Ele tinha um apartamento na  Avenida de Roma mas raramente estava em Lisboa. Tinha muitos negócios em Cabo Verde e estava a construir um hotel na cidade da Praia.
Avenida de Roma



                                                                              (fim do 4º episódio)


28 de maio de 2016

3º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO

Fado do Cacilheiro


Um banco de jardim pode ser o começo de uma bela relação. O Alferes Sesinando esparramado no banco de tiras de madeira olhava embevecido Milú e seu canito Lanudo.

Pelo canto do olho fazia-lhes o retrato. Media a cena e com voz melosa para boi dormir tentou uma aproximação já mais que vista, mas de resultados certos e garantidos.

− Desculpe o meu atrevimento mas a menina Milú por acaso não mora no Bairro de Alvalade? É que a sua cara não me é estranha…

− Não, enganou-se. Moro na Avenida de Roma, ali ao pé do Hospital dos Malucos, o Júlio de Matos. Conhece?
Hospital Júlio de Matos
 Fonte: Blogue Restos de Colecção 


− Mesmo agora passei por lá, vim a pé desde o Martim Moniz, para ver como Lisboa já mudou neste 3 anos que estive fora na guerra em Angola. É uma zona muito chique!

− Lá isso é verdade! Só mora ali gente boa e simpática. Eu vivo com um construtor civil, um homem já de uma certa idade e que anda sempre por fora. Agora está em Cabo Verde a construir um “resort” de luxo. Só cá vem de dois em dois meses. Eu tenho a companhia do Lanudo. Vivo muito só!

− Está como eu. Não se queixe. A vida é assim. Mas agora me lembrei…eu ainda não me apresentei. Sou o Alferes Sesinando. Cheguei ontem no navio Niassa. Ando a ver se localizo o Retiro do Quebra Bilhas. Disseram-me que fazem lá umas iscas como não há outro restaurante em Lisboa. A menina conhece?

− Se conheço o Quebra Bilhas? Conheço lá eu outra coisa! Até já lá cantei!...

Quebra Bilhas em 2016.  Foto de Onaírda


− Não me diga. Então está já convidada para lá irmos almoçar. Mas ainda é tão cedo, a menina já andou aqui no lago nos barquinhos? É aqui tão perto. Mesmo ao lado. Podíamos dar ali um passeio. Eu remava e a menina pegava no Lanudo   

− Nem pensar. Tenho um medo do mar e depois nem sei nadar…

− Lá por isso não seja obstáculo. Acontece que o lago tem água mas dá-lhe pelos joelhos, ninguém lá morreu afogada.

−Ah. Julgava que fosse mais fundo. Nunca lá fui. Barco para mim só o cacilheiro.
Lisboa – Cova do Vapor. Praia. Sol. Calor. Verão.

− Bem então vamos dar uma voltinha e eu canto-lhe o Fado do Cacilheiro enquanto remo. Era romântico não acha?

Milú pensou um pouco e depois cedeu. Estava danadinha para dar uma voltinha acompanhada do simpático Alferes. Depois, ele cheirava tão bem. Ou seriam as flores do jardim? Ali ao lado havia um roseiral.

O encarregado dos botes indicou um azul celeste e lá entrou o alferes que deu a mão à Milú que apertava assustada o Lanzudo contra o peito.

Com duas remadas fortes do alferes o bote seguiu o seu caminho e Milú sorriu encantada. Nunca fora no bote. Era a primeira vez! E estava a gostar.
Sesinando começou a trautear o velho fado do Cacilheiro. Um êxito revisteiro.

Video: Zé Cacilheiro (José Viana)

O céu estava azul e fazia calor. A primavera já ia longe e o mês de Junho começava a aquecer o ambiente.


Milú encantada deu folga à trela e o Lanzudo vendo o espelho de água enervou-se. Começou a rabiar e saltou para a água. Milú tentou apanhá-lo e desequilibrou o barco que perigosamente balançou. O Alferes Sesinando tentou agarrar a Milú e o barco balançou ainda mais bruscamente. Em dois segundos todos estavam a boiar no lago.
Era o fim da picada!


21 de maio de 2016

2º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA BILHAS de A. RAPOSO

Do Martim Moniz ao Campo Grande


Sesinando acordou com a boca a saber a papéis de música. Dormiu mal até às 3 da manhã.
Os quartos da pensão “Bons Sonhos” eram baratos – 15 escudos uma dormida, mas o quarto era minúsculo onde mal cabia o divã de molas e as paredes eram de tabique de madeira o que dava para se ouvir tudo o que se passava aos lados.
Estava convencido que a pensão mal dava tempo para sonhar pois as cabo-verdianas que faziam o Largo Martim Moniz entravam e saiam várias vezes e cabo-verdiano é assim, é expansivo na cama…
Sesinando não exigia mais pelos 15 paus. 
Lá pela madrugada adormeceu profundamente e agora já estava pronto para sair. Banho nem vê-lo. A pensão não tinha! Nem tampouco águas correntes  nem quentes nem frias. Era pegar ou largar. Pelo preço não se podia pedir mais. 
Divertiu-se fumar e a beber Sagres até às duas da manhã e a ouvir mornas e boleros tocados pelo ceguinhos-músicos do Bar “Bolero”. Não foi em engates.
Ainda era cedo. Havia muito tempo para a esbórnia. 
Vestiu-se e petiscou um copinho de leite na leitaria da esquina e seguiu o seu objetivo ir ver o lago dos barcos do Campo Grande e espreitar  e eventualmente almoçar no retiro do “Quebra Bilhas”.
Alguém lhe falara da casa. Com mesas de correr e um caramanchão a sombrear e refrescar o ambiente. Comida caseira e bom vinho da pipa.
Estava danadinho para comer umas iscas com elas, um prato do seu agrado e que não o via há mais de dois anos!
E lá foi o nosso alferes Sesinando a pé  agora já à civil, pela Almirante Reis acima até ao Areeiro e depois Avenida de Roma até ao Campo Grande.

Almirante Reis
Fonte: Urban Sketchers
A cidade mudara muito e a parte nova era de arquitetura moderna. O arranha-céus do Areeiro, com a sua dúzia de andares era o edifício mais alto da cidade. Matarruano que visitasse Lisboa tinha que ir espreitar o edifício e também ao Jardim Zoológico ver os animais exóticos.

Chegou ao Jardim do Campo Grande e foi ver o lago onde os pequenos botes a remos eram o prazer máximo dos namorados.


Campo Grande
Fonte: 
Urban Sketchers
Ali ficou sentado num banco de jardim a fumar e a gozar da boa vida quando de repente e sem dar por isso um cãozinho veio ladrar às suas botas. Era uma amostra de cão. Mal se via o focinho cheio de pelos bem como o corpo. Parecia um novelo de lá a ladrar-lhe aos pés. 
Afogueada atrás do canito vinha a dona. Chamando-o pelo nome e ele sem obedecer, pois embirrara com as botas do nosso alferes.
Sesinando, num golpe de rins, agarrou na trela solta e puxou-o. De seguida a dona a deitar os bofes fora chegou ao alferes e agradeceu.
− Ai, muito obrigado. Este malandro de repente foge-me e atravessa a rua. É um perigo. Não sei como lhe hei de lhe agradecer.
− Ora − disse Sesinando − não me custou nada apanhar o bichinho. Pode-me agradecer dizendo-me o seu nome?
− Milú. E o cãozinho chama-se Lanudo.
Sesinando pediu-lhe para ela descansar um bocadinho, ali no banco do jardim havia lugar para todos e sobrava espaço.
Estava-se a preparar um começo de uma bela amizade. Quase ia apostar.


(fim do 2º episódio) 

14 de maio de 2016

1º EPISÓDIO - O RETIRO DO QUEBRA-BILHAS de A. RAPOSO



(Histórias de Lisboa do antes de 25 de Abril)

PAQUETE NIASSA Fonte: http://restosdecoleccao.blogspot.pt/

O Alferes Sesinando tinha acabado de desembarcar do Niassa no Cais a Rocha, em Lisboa.
O saco da roupa à civil e algumas recordações de África mais propriamente de Angola, era toda a sua riqueza.

Fonte: http://www.museudopapel.org/
Lá de Freixo de Lamego de onde era natural, uma aldeia perdida nas pedrarias da montanha, deixara os pais e os dois ou três amigos. Trabalho por lá não havia nem à partida nem à chegada. Isso sabia bem pois sempre recebia um ou outro aerograma dos pais quando estivera no mato dois longos anos.


Ali estava ele, com um futuro obscuro à sua frente mas são como um pero e sem marcas da guerra. Vinte e um anos, já a fazer vinte e dois em Agosto que já vinha perto.
Notava-se pelo calor.

Aliás, a guerra era para esquecer. Nada mudara em Angola e pelos vistos nada mudara em lado nenhum.
Pensara em ir para França. Diziam que se encontrava facilmente trabalho e bem pago. Em francos. O pior era a língua. Não dominava.
Tinha ainda uns escudos no bolso fruto das trocas de coisas com os pretos. O saco vinha carregado de pau de cabinda, madeira que se vendia bem em Lisboa. Era o seu pé de meia.

Meteu-se num elétrico e veio até ao Martim Moniz local que ele sabia haver pensões baratas para pernoitar e onde se dizia que a noite era divertida.
Ali à esquina ficava a conhecida “Base Aérea nº 1”  nome de guerra do Bolero, um bar de terceira com música ao vivo. 

Uma orquestra de três ceguinhos da Associação Luiz Braile que iam ali tocar na noite (para eles era sempre dia!) para fazer uns tostões extra. Entre as gargalhadas do mulherio já tocado e os acordes desafinados das concertinas uma nuvem de fumarada tapava das vistas muitas desgraças.

O bar era frequentado por senhoras que já tinham feito duas guerras mas que continuavam firmes e prontas a enfrentar qualquer batalhão, por mais armado que fosse desde que lhes oferecesse vinte paus e uma cerveja.

Sesinando estava precisado. Tinha que mudar o registo e retirar o mato da sua cabeça.
Agora a guerra dele era outra. Havia música, cerveja e putedo. E viva a “peluda”!



Fonte: http://madeinportugal560.blogspot.pt/



3 de abril de 2016

12º E ÚLTIMO EPISÓDIO - CARTA DO FINADO CABO JEREMIAS

Nota:
Este episódio final está relacionado com o 8º Episódio (Clicar) e com 9º Episódio (Clicar)

Da direção do Lar do Sagrado Coração de Jesus da Nazaré recebemos uma carta de um seu utente acabado de falecer, com a indicação de ser dirigida, após a sua morte, ao blogue Policiário de Bolso.

Eis o texto: 
Encontro-me só no mundo e sem ninguém. A minha saúde está por um fio pois a idade não perdoa e já vou perto da centena de anos. Tenho vindo a seguir com interesse e recordando com saudade os diferentes episódios contados pelo historiador A. Raposo de forma escorreita e verdadeira. Para ele os meus respeitos.
O homem sabe do que fala e sei que recolheu informações de forma a contar as histórias tal qual elas se passaram.
Acontece que guardei religiosamente segredo de um facto que aconteceu por alturas em que fui mais a viúva Teresinha apanhado em flagrante pelo Raul das Solas e Cabedais.
Nessa altura e uma vez que fui ameaçado pela sovela do Raúl, saí de rabinho entre as pernas e salvei as minhas vergonhas da degola e a viúva do falatório. 
O caso acabou em bem e o Raul ficou satisfeito e acabou no mês seguinte por casar com a Teresinha. Eu na altura vivia com a minha mulher e não podia fazer ondas…
Porém, eu sabia que ela já estava a faltar-lhe as regras há 1 mês e o casamento veio a tempo de salvar o escândalo. 
Acontece que a filha da Teresinha (que emigrou depois para a Austrália e de quem nunca mais soube nada) era afinal minha filha e tu Ana Teresa és minha neta.

Que Deus te proteja. Afinal a geração do cabo Jeremias não acabou – não tivemos filhos com a minha já falecida esposa e como prova do meu amor deixo-te em testamento o prédio onde estou a gozar os últimos dias da minha existência.

Assina

Cabo Jeremias

27 de março de 2016

11º EPISÓDIO - O CARNAVAL DO CABO JEREMIAS

Nos velhos anos de 1955 o Carnaval ainda não era um negócio e cada um mascarava-se como entendia.
Os números mais tradicionais:
O XEXÉ – indivíduo de fato séc. XVII, chapéu de dois bicos, meia alta, jaqueta vermelha. Na mão um chifre e na outra um facalhão de madeira pintada. Uma barriga enorme para atacar os transeuntes à barrigada. Este personagem desapareceu de cena nos anos seguintes. Era um personagem castiço.
Mas números populares mesmo, era a troca de trajes. Os homens mascaravam-se de matrafonas e as mulheres de homem.
De acordo com a lei e a ordem em vigor, era proibido tapar as caras com máscaras e os homens teriam que fardar de calças e as mulheres de saias.
Como no Carnaval − dizia-se, ninguém levava a mal, excepto o cabo Jeremias e seus iguais que tinham trabalho redobrado correndo à chanfalhada e mesmo prendendo os prevaricadores.  
O cabo Jeremias não tinha descanso.
Pela Rua Barão de Sabrosa abaixo vinham os patuscos personagens: um homem mascarado de mulher, pintado com mau gosto e exagero nas tintas, saltos altos de difícil equilíbrio uma barriga enorme a fingir de grávida, empurrando um carrinho de bebé.
Dentro dele com uma touca e chucha ao pescoço, um enorme biberão na boca com vinho tinto que alimentava o matulão que encolhido seguia encaracolado dentro do carrinho. De vez em quando fazia birra e a “mamã” chegava-lhe à boca o biberão que ele bebia sôfrego, ficando rapidamente etilizado e incapaz de sair do berço de seu próprio pé.
Atrás deles seguia de chanfalho na mão o cabo Jeremias e depois de breve corrida em que a “mamã” perdia os sapatos de senhora pelo caminho, lá os levava até à esquadra para despachar o auto e deixá-los uma noite no calabouço para evaporarem os vapores do álcool.
Na terça-feira de Carnaval não havia mãos a medir.
Era o tempo das serpentinas nas janelas e das batalhas entre rapazes na rua e raparigas nas janelas atirando saquinhos contendo feijões e outras leguminosas.
Atirava-se ovos e farinha que deixavam às vezes as moças em desespero e muitas vezes as brincadeiras eram peadas e inconvenientes pelo que pouco a pouco foram-se proibindo até hoje.
O Carnaval selvagem, popular e genuíno, por vezes abrutalhado mas que imanava do povo. Anos depois alguém se lembrou de transformar em negócio e tudo mudou.
O Carnaval ainda passou para os cinemas e hoje tem localidades que exploram a folia metendo em desfile mais nuas que vestidas as brasileiras da indústria hoteleira que vão para ali fazer umas horas extra e pôr o material à venda, quem sabe apareça algum construtor civil que entre no negócio…


Mudam-se os tempos mudam-se as vontades.

A. Raposo

20 de março de 2016

10º EPISÓDIO - UM CASO BICUDO DO CABO JEREMIAS



Talvez se possa dizer com mais propriedade que este era um caso de dois bicos.
Segundo se apercebia logo à primeira vista o cabo Jeremias estava a dirimir assunto de marido enganado.
Na Picheleira era o que mais havia era casos desses. Duravam até ao dia em que o marido, desconfiado ou mesmo avisado por algum amigo mais chegado, armava uma espera.
O resultado era uma cena de facada ou de pancadaria, na falta de talheres. No pátio, a algazarra subia de tom e o mulherio vinha todo às portas dar opiniões.
Aquela cena não tinha nada de especial. O marido chegara a casa umas horas antes do devido e apanhara na cama a patroa com o carteiro, e a pasta da correspondência.
A desculpa do carteiro é que Mariana estaria a assinar de cruz um aviso de recepção.
Como argumento esfarrapado não poderiam arranjar melhor.
O Fanan – o marido enganado saltara para o colchão e à força de punho distribuía soco ora para a patroa ora para o Firmino (o carteiro).
O carteiro mais conhecido no bairro pelo “brilhantinas” era um belo rapaz de bigodinho à Clark Gable – o grande boneco do filme “E tudo o vento levou”.
O brilhantinas tinha muita saída nas mulheres mas não aguentava duas galhetas no focinho. Sangrava pelo nariz que mais parecia Cristo crucificado.
Mariana não era uma moça muito jeitosa pois tinha um pouco de escoliose que junto ao facto de ter um nariz muito afilado lhe dava um ar de abelharuco. O que valia era o resto do corpo que me escuso de descrever não vá algum jovem imberbe ler estas linhas e entusiasmar-se nas artes de onanismo.
Certo é que a pancadaria não parava. Ora dava o Fanan ora levava o Fanan. Mariana gritava como vitela desmamada e depois entrou a vizinhança e o padeiro acabou também a dar a sua bordoada no Firmino que levava de todos e não tinha físico para responder.
A sacola da correspondência ocupava metade do quarto entre telegramas, cartas registadas e vales de correio.
Mariana com as vergonhas à mostra encolhia-se a um canto da casa, à cabeceira da cama. O quadro da última ceia que estava pendurado aos pés da cama já tinha tombado e o próprio bidé que aguardava as partes interessadas com água morninha, já levara um pontapé do “Marreco” que era o avançado centro do Penha de França que estava em casa de baixa com uma entorse.
Alguém veio cá abaixo chamar a polícia.
Jeremias subiu à cena e com o seu vozeirão anunciou:
–Vai tudo para a esquadra! Tudo à minha frente e a toque de caixa! A Menina Mariana vista qualquer coisa. Se leva tudo à mostra ainda vamos ter mais sarrabulho a descer a rua Barão de Sabrosa. Andor! 

6 de março de 2016

8º EPISÓDIO - O CASO DA VIÚVA TERESINHA

O cabo Jeremias apanhava na esquadra do Alto do Pina os mais disparatados visitantes carregando os mais esquizofrénicos temas.
Era preciso utilizar toda a psicologia do mundo para dominar e resolver o dia-a-dia naquela casa de doidos que era a esquadra.
Ora entrava um puto que tinha roubado ao Alfredo da Tasca um pires de jaquinzinhos fritos, ora a senhora Maria que tinha uma cadelinha que fora abalroada pelo cão do Sr. Joaquim da papelaria e o resultado era de esperar complicado.
O cabo Jeremias tudo dominava que mais parecia um treinador de futebol, de raiz popular e com má dicção em português, de nome Jesus que apareceu no mundo do jet-set uns 50 anos depois.
O mais complicado assunto foi sem dúvida o caso da viúva Teresinha que lhe deu água pela barba e alguns amargos de boca com a sua mulher.
Conta-se em poucas palavras: a viúva Teresinha (uma mulheraça que com toda a certeza ainda aguentaria alguns anos de felicidade erótica, pensamos nós que não somos grandes adivinhos neste particular) e que tinha um problema para o cabo Jeremias resolver.
Em sonhos, a viúva via o seu falecido marido a mastigar torresmos enquanto se despia para se deitar e a admoestá-la por ela andar a fazer olhinhos ao senhor  Raúl, da loja de solas e cabedais, por sinal um rapaz de bigode e cabelo às ondinhas sempre simpático para as senhoras que iam à loja adquirir atacadores para os sapatos dos respetivos esposos. Era o esquisito ruido do marido a mastigar os torresmos que a fazia acordar com o coração oprimido e o credo na boca. 
O cabo Jeremias tinha montanhas de paciência, mas um homem às vezes fraqueja apesar de se chamar Jeremias!
O marido aparecia à viúva, sempre à quarta-feira à meia-noite, exatamente na hora em que o cabo Jeremias saía de serviço. Coincidências destas só nos bons livros policiais da hoje extinta coleção Vampiro. Literatura que o cabo Jeremias desconhecia de todo, daí ter aderido à solicitação da viúva.
Contrariado, o cabo ofereceu-se, voluntariamente, para ocupar o quarto que a Dona Teresinha costumava alugar a estudantes e que estava vazio por causa das férias grandes. Era um quarto independente, amplo, cama “Quinane”, com psiché e penico dissimulado na mesinha de cabeceira, cortinados coloridos a imitar lupanar decadente do sec. XVIII.
A viúva lá conseguiu “engatar” (no bom sentido cristão) o cabo e seguiram para a rua Sabino de Sousa, a dois passos da esquadra. Por grande coincidência naquele dia era quarta-feira em todo o país.
Jeremias estava esgotado de tantas solicitações, durante as oito horas de serviço.
Mal chegou ao quarto independente da viúva Teresinha caiu na cama exausto nem dando tempo para se desenvencilhar das ceroulas de atilhos – à moda dos pescadores da Nazaré – que a sua mulher lhe oferecera pelo anos.
Caiu no sono como uma pedra. Porém, acordou sobressaltado com o ruido estranho de alguém perto dele, aparentemente a comer torresmos.
Acendeu a luz, pegou no chanfalho, e abriu a porta.
Do outro lado estava a viúva Teresinha, tal qual veio ao mundo com uma vela acesa numa mão e a comer uma mão cheia de torresmos, como se estivesse hipnotizada, com um olhar vidrado. As suas belas pupilas fixavam as ceroulas novinhas e aos quadradinhos coloridos, única peça de roupa no corpo da autoridade.
Acontece que a maioria dos nossos leitores são tementes a Deus e não “embarcam” em histórias da carochinha com laivos de literatura de Sacher-Masoch.
E nós respeitamos tal deriva.
A partir daquele dia o cabo Jeremias nunca mais foi o mesmo. Parecia que tinha visto o Diabo! Melhor: o Diabo de saias sem saias!

O que aconteceu realmente nunca se veio a saber ao certo.
Quiçá algum dos nossos indefetíveis leitores tenha encontrado saída para o beco em que o nosso bom cabo Jeremias se meteu, e se o fez merece todos os nossos encómios.
Mas os mistérios que a vida tece são às vezes tão insondáveis que um normal escritor de histórias curtas, como nós, por muito que tentemos não conseguimos até hoje construir um final feliz. É só drama e de faca e alguidar!

Não há pachorra!

A. Raposo